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Pesquisas revelam o potencial do Líquido da Castanha de Caju para diversos fins

De acordo com o IBGE, o Brasil ocupa hoje a sexta posição mundial na produção da castanha de caju. Do total, 99,5% está na região Nordeste e mais da metade é produzido no estado do Ceará. Como subproduto, a produção da castanha de caju gera a casca e também uma substância, internacionalmente conhecido como Líquido da Castanha de Caju (LCC), que representa aproximadamente 25% do peso da castanha. O LCC está localizado na região entre a amêndoa e a casca e é uma rica fonte de fenóis. 

Em 2006, Diego Lomonaco, Químico Industrial formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e hoje professor do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica dessa Universidade, descobriu, durante sua pesquisa de mestrado, o potencial larvicida do LCC contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor de doenças como a Dengue, a Zika, Chikungunya e Febre amarela. 

Na época, a professora Gilvandete Santiago, minha orientadora na UFC, trabalhava em pesquisas envolvendo substâncias naturais como larvicidas para o mosquito da dengue. Como a composição química do LCC é basicamente de fenóis, e fenóis são substâncias biologicamente ativas, a minha ideia foi avaliar se o LCC funcionaria contra as larvas do Aedes aegypti e sim, funcionou muito bem”, conta Diego. 

Em 2008 ele publicou um artigo pioneiro comprovando a função larvicida do subproduto. Desde então, no Laboratório de Produtos e Tecnologia em Processos da UFC, coordenado pela professora Selma Elaine Mazzetto, junto com outros pesquisadores, Diego vem aperfeiçoando e descobrindo novos potenciais deste líquido.

“A grande descoberta é a versatilidade química desse subproduto. Dele já desenvolvemos polímeros (plásticos), aditivos antioxidantes, larvicidas, bactericidas, fungicidas. Misturado com outros materiais, como a fibra do côco, por exemplo, desenvolvemos um aglomerado com potencial para ser aplicado inclusive na engenharia”, explica Diego. 

O LCC técnico (LCCt) é um subproduto industrial de baixo custo, obtido por meio do beneficiamento da castanha-de-caju. Negro e viscoso, esse líquido é aquele proveniente da agroindústria, onde é eliminado durante o processo de tostagem da castanha. 

Em 2017, químicos e biólogos da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) começaram a desenvolver projetos com o LCCt. No Laboratório de Ecotoxicologia e Genotoxicidade (LECOGEN) da UFGD, coordenado pela professora Alexeia Barufatti, bióloga e professora da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais (FCBA/UFGD) eles vêm desenvolvendo pesquisas a fim de avançar na utilização desse resíduo agroindustrial no combate ao Aedes.  “A ideia era valorar esse resíduo que pode ser tóxico se descartado incorretamente no ambiente, mas que tem muito potencial para diversas finalidades”, destaca um dos cientistas que participam do Projeto, Bruno do Amaral Crispim, biólogo e pós-doutor em Biodiversidade e Meio Ambiente. 

 O grupo estabeleceu como meta de encontrar a formulação ideal do LCCt para o fim de larvicida, de maneira que pudesse vir a ser comercializável. “Visto que é um óleo e, portanto, de difícil solubilidade, precisávamos encontrar uma forma de torná-lo solúvel sem perder o potencial larvicida. Afinal, a larva do mosquito se desenvolve na água. Além disso, precisávamos nos certificar de que o produto não fosse prejudicial ao meio ambiente e outros organismos”, afirma Bruno.

Após algumas tentativas frustradas, foi entre 2020 e 2022, durante a pesquisa de doutorado da bióloga Hélina dos Santos Nascimento, também integrante do LECOGEN, que o grupo encontrou um resultado promissor. 

“O LCCt é muito ácido, portanto percebemos que precisávamos neutralizá-lo. Ao misturá-lo com hidróxido de sódio vimos que ele se tornou mais solúvel, sem perder a capacidade larvicida, e ainda mantém sua toxicidade limitada ao foco, que é a larva do Aedes aegypti”, lembra Hélina. 

Segundo ela, as cinco substâncias que o grupo utilizou para neutralizar o LCCt se mostraram eficientes, entretanto, o Hidróxido de Sódio apresentou melhor viabilidade econômica e facilidade em termos industriais, por isso foi a escolhida para seguir na pesquisa. Hélina, que já patenteou a pesquisa, complementa que, “para ser comercial, precisa ser um produto concentrado e de fácil aplicação. Para tanto, precisamos ainda de algumas etapas, mas estamos cada vez mais perto de tornar o produto comercializável”, completa.

Diego Lomonaco também se juntou em parceria ao projeto do LECOGEN. “Fiquei muito satisfeito e animado com as novas descobertas. O plano é desenvolver um produto para ser usado de forma caseira, pelas próprias pessoas em casa. O mais amplo, mais acessível possível, não só economicamente falando, mas em disponibilidade e manuseio”, afirma.

De acordo com Diego, apesar da dengue e demais doenças transmitidas pelo Aedes aegypti serem frequentes e causarem surtos mundiais, elas estão entre as chamadas doenças negligenciadas. “Hoje o governo faz o uso controlado de larvicidas sintéticos, que são aplicados por agentes de saúde na casa das pessoas, em momentos propícios da larva do mosquito se desenvolver, mas isso não garante a segurança”. Ele reitera que “se as pessoas tiverem em casa um larvicida natural para aplicar frequentemente nos locais propícios ao mosquito, certamente veremos muito menos casos dessas doenças por aqui”. 

Nos primeiros quatro meses de 2022, o Brasil já registrou quase a mesma quantidade de casos de dengue de todo o ano passado.
De acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, foram 542 mil infecções prováveis entre janeiro e abril deste ano. O número de casos de Zika, também transmitida pelo mesmo mosquito, no primeiro trimestre do ano saltou 31,8% em relação ao mesmo período de 2021. 

O programa de pesquisas desenvolvido pelo Laboratório de Desenvolvimento de Inovações Terapêuticas (LDT) do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília (UnB), em colaboração com Instituições nacionais e internacionais, também tem o LCCt como base em pesquisas. De acordo com o doutor em Química e professor do Departamento de Farmácia da Universidade de Brasília (UnB), Luiz Romeiro, “os lipídeos fenólicos do LCC apresentam estruturas privilegiadas capazes de mimetizar ácidos graxos e atuarem como moléculas de sinalização que regulam vários efeitos fisiológicos no metabolismo e inflamações. Vale destacar a atualidade dos estudos na área da lipidômica no desenvolvimento de novos fármacos para doenças como câncer, diabetes, doença de Alzheimer e doenças infectocontagiosas”. Luiz Romeiro cita que pesquisas realizadas no LDT, mas ainda não publicadas, mostraram eficiência de derivados do LCC inclusive contra o SARS-CoV-2, impedindo que o vírus da COVID-19 infectasse as células Vero-6.

“O LCC é um subproduto muito promissor”, concordam todos os cientistas.

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