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Pesquisadores desenvolvem repelente que impede mosquito da dengue de seguir pistas químicas

As doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti – dengue, chikungunya e zika – acometem milhares de brasileiros todos os anos. Segundo dados do Boletim Epidemiológico 51 do Ministério da Saúde, foram notificados 979.764 casos de dengue em 2020. Diante do perigo que o inseto oferece à saúde pública, uma equipe da Universidade Federal do Paraná (UFPR) decidiu estudar uma nova forma de repelente. O produto é capaz de despistar as habilidades que o mosquito desenvolveu em seu processo de evolução.

O professor doutor em Química Orgânica e pós-doutor em Ecologia Química Francisco de Assis Marques comandou o estudo. Ele explica que as fêmeas do mosquito têm muita necessidade de mudar a alimentação depois que copulam. Elas precisam de sangue, pois é dele que virão o ferro e os nutrientes necessários para viabilizar os ovos. Para encontrar os hospedeiros, as fêmeas aprenderam a reconhecer várias substâncias que eles exalam. E um dos principais alvos é o ser humano.

“Ela aprendeu a reconhecer o CO2 e o ácido lático, duas das principais entre várias outras substâncias. Os repelentes, de uma maneira geral, bloqueiam o mecanismo sensorial das fêmeas, dificultando que elas encontrem as substâncias químicas que nós exalamos e nos localizem”, explica.

O repelente criado é diferente, uma vez que age tornando essas substâncias menos atraentes. “A fêmea já conhece o ácido lático. Então, se o usarmos e fizermos algumas transformações químicas nas funções que esta molécula tem, é possível que ela continue interagindo com seus receptores, mas que não passe mais para a fêmea a mensagem de ser um atraente, porque a molécula foi modificada. Mostramos que isso é viável”.

O professor descreve o processo químico usado para a concepção do produto e detalha que alterações estruturais foram feitas para atingir o resultado. “Algumas funções químicas são importantes para que uma molécula apresente a repelência, entre elas a presença de ésteres a amidas. Olhando para a estrutura do ácido lático, percebemos a presença de uma carboxila e uma hidroxila, e que seria muito fácil manipular, por exemplo, a carboxila para uma função amida e a hidroxila para uma função éster. Com isso, agregaríamos nesta estrutura as funções que já se mostraram importantes para os outros repelentes. Sintetizamos uma série de moléculas, variando tanto a amida como o éster. Em uma delas, em particular, conseguimos uma eficácia de mais de 10 horas nos testes feitos em laboratório”.

Esse repelente, além de ser derivado de uma molécula natural, biodegradável e de baixa toxidade, pode também apresentar o diferencial de dificultar para as fêmeas dos mosquitos o desenvolvimento de mecanismos que visem diminuir a eficiência dos repelentes, o que já está acontecendo com o princípio ativo mais usado em nível mundial, uma vez que é derivado de uma molécula que as próprias fêmeas utilizam para ativar seu sistema sensorial, ou seja, seria uma maneira de voltar a evolução dos mosquitos contra eles próprios. Agora que provaram a viabilidade da hipótese, a próxima etapa será trabalhar na síntese da molécula para que o produto seja sustentável. “Queremos sintetizar essa molécula sem usar solvente, para minimizar os passivos ambientais, seguindo os princípios da Química Verde. Será, talvez, o repelente mais verde produzido no mundo”, comemora. Para isso, a equipe precisa de apoio financeiro e já há empresas interessadas em financiar os estudos.