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Pesquisadores criam curativos à base de celulose e grafeno

Imagine curativos que evitam a proliferação de bactérias e ajudam na cicatrização de feridas graves, com um material biocompatível que restaura o tecido da pele com mais rapidez e menos custos. Esta é a ideia que um grupo de pesquisadores do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveu para chegar a dois curativos à base de biocelulose. A equipe trabalha em parceria com a Universidade da Flórida e com o Departamento de Física da UFC.

São produtos similares, mas com diferentes potenciais de cicatrização. Um dos produtos é o TecDerm, e foi pensado para agir em ferimentos em que ocorre o tecido necrótico (morto). O princípio ativo faz a remoção do tecido, que já não consegue se regenerar. Já o GrafDerm possui uma ação de cicatrização, principalmente, graças ao grafeno, que tem capacidade de atuar neste processo, além de possuir ação antimicrobiana, devido à presença de nanopartículas de prata ancoradas ao grafeno.

Érika Patrícia Chagas é doutora em Engenharia Química e é uma das responsáveis pelo desenvolvimento do GrafDerm. Ela explica que ele é ideal para feridas que têm intensa exsudação, ou seja, que expelem grande quantidade de líquidos. “O curativo faz um controle com o grafeno, que teve o efeito antimicrobiano potencializado com as partículas de prata. Isso é muito importante para a recuperação, porque a exsudação também colabora para o processo de proliferação de microrganismos, o que poderia atrasar o processo de cicatrização”.

O projeto do GrafDerm está com tudo aprovado para dar início aos testes pré-clínicos, inclusive, com aporte financeiro e parcerias. A próxima fase, em breve, será a clínica, que é quando os curativos, que deram bons resultados na fase anterior, são submetidos a novos testes para, após, serem comercializados. Isso significa que o produto poderá ser aperfeiçoado para ser fabricado e utilizado em larga escala. Mas, para a fase clínica, a equipe de pesquisadores vem prospectando potenciais empresas e investidores interessados no desenvolvimento, escalonamento e comercialização do curativo.

Semente universitária

A Startup Biomtec teve início a partir de projetos de pesquisa de sucesso concebidos no Departamento de Engenharia Química da UFC. O grupo de pesquisadores decidiu apostar em produtos que apresentaram bons resultados no âmbito acadêmico, dando continuidade até que cheguem ao mercado. A empresa foi aberta recentemente, graças a um edital de fomento à Ciência, no qual o curativo TecDerm foi inscrito. Mas além dos curativos, a Startup produz biomateriais diversos, para fins medicinais como regeneração óssea e curativos avançados. O repertório ainda inclui o desenvolvimento de polímeros para revestimento de dispositivos como stents vasculares, entre outros.

O professor do Departamento de Engenharia Química da UFC Rodrigo Vieira, que liderou os estudos do GrafDerm, conta que todas as pesquisas que o grupo desenvolve na startup são projetos de alunos da Universidade. “Percebemos que a maioria dos bons projetos apresentados sempre param na produção do paper. Isso nos dá desconforto, porque queremos ver boas pesquisas indo para o mercado. Não é apenas virar uma patente, mas algo que precisa ser comercializado. Para deixar os muros da universidade, surgiu a ideia de criar uma statup”.

Ele ressalta que na empresa há um foco diferente da universidade, já que a startup visa à formação e obtenção de tecnologias para comercialização. “Nós percebemos que precisamos entrelaçar o conhecimento da universidade com o da empresa e, assim, a gente consegue ir mais longe. Às vezes precisamos de um viés acadêmico e outro empresarial. Acho que este é um diferencial do nosso grupo: olhar a pesquisa com um ponto de vista científico e também mercadológico”.