Notícias

“Percebam a Química no dia a dia, entendam como ela funciona”

Profissionais atentos, atualizados e dispostos a empreender representam o perfil mais talhado para o sucesso no mundo que virá, pós-pandemia. Essa é a aposta de Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli, presidente do Conselho Regional de Química da 17ª Região (CRQ XVII), responsável pela atuação do Sistema CFQ/CRQs no Estado de Alagoas, que possui 1.349 profissionais e 437 empresas registradas.

Maria de Fátima fala com orgulho do papel desempenhado pelos profissionais da Química alagoanos na produção de álcool em gel e de outros produtos dentro da campanha Química Solidária, considerado por ela muito importante no combate ao Covid-19 em Alagoas. A síntese da entrevista:


1) Como a senhora caracterizaria a Química em Alagoas? Quais setores são os mais representativos?

Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli – Em Alagoas, ainda predomina o setor sucroalcooleiro. Se pode dizer que existe uma certa concorrência hoje com a indústria de plásticos, mas a Salgema Indústrias Químicas já foi mais forte… Hoje, com a grande quantidade de processos que a empresa administradora vem respondendo, ela caiu assustadoramente. Mas ainda são açúcar e álcool predominando. Há uma parte de agronegócios bastante forte, mas é isso.

2) E a atuação do CRQ XVII? Qual tem sido o foco e qual é o maior desafio atualmente?

Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli – O maior desafio do CRQ XVII é que a maior parte dos profissionais hoje está trabalhando nas usinas ou em alguma das pequenas empresas de plástico. Ou trabalhando para o Estado. Ou atuando na área educacional… Mas a área educacional é um enorme desafio porque desde que saiu um decreto do Ministério da Educação sustentando uma ideia de que não é necessário que os professores se registrem. Estamos com dificuldades com essa questão. O restante são áreas permeadas que a gente tem aí, processos que afetam o Brasil inteiro, como o da indústria de laticínios. Por decisão judicial, as indústrias de laticínios foram deixadas por conta dos médicos veterinários independentemente da atividade primária da indústria. Isso é um problema a se enfrentar.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico de Alagoas?

Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli – Estamos começando a sair (das medidas de distanciamento mais restritivas), né? Isso significa que pelo menos estamos entrando em um cenário de progressão melhor. Quanto ao Conselho, logo no início da pandemia, entramos em contato com todos os conselheiros e eles começaram a se articular com diversas indústrias. Assim, nós apoiamos a ação que se iniciava na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) pra buscar os insumos necessários para a produção de álcool gel, hipoclorito e uma série de produtos necessários e importantes no momento, dentro do espírito que se consolidou na campanha Química Solidária. Houve distribuição para os hospitais universitários, para os lares de idosos, para a polícia. Houve uma relação bem considerável de entidades beneficiadas. Graças a Deus, conseguimos um volume considerável. Neste momento, a universidade ainda está parada mas há expectativa de retomada das aulas a qualquer momento. Com isso, o laboratório foi desativado… A ausência de produtos no mercado já foi sanada. Contribuímos e acho que isso é o mais importante. Desempenhamos um ótimo papel junto à sociedade. Não é uma tarefa fácil, todo dia tem um desafio novo. Hoje tenho um desafio adicional, um pequeno grande desafio: encontrar os novos conselheiros do CRQ XVII. Acho que com a entrada do presidente Ribamar (José de Ribamar Oliveira Filho) na presidência do CFQ, a gente tem uma nova perspectiva de levantar mais a classe da Química. Acho que as pessoas começam vislumbrar a Química como uma área mais valorizada.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ?

Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli – Sou formada em Engenharia Química, no Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Já estou nessa ativa do Conselho há uns 15 ou 20 anos. Sou do grupo que se mobilizou pra criar o CRQ XVII, pois éramos vinculados ao CRQ I, de Recife. Fomos os fundadores e hoje o reitor da UFAL é um dos integrantes do nosso grupo de fundadores… Iniciei essa atividade, esse acompanhamento como conselheira, e acabei assumindo a presidência… Sempre fui da área de exatas. A Química pra mim sempre foi instigante. As pessoas até me perguntam, e tenho até dificuldade de explicar o porquê da Química. É uma área que faz com que você raciocine constantemente e que desenvolva novas propostas, que instigue a pesquisa… É por aí! (risos)

 5) Como será a Química pós-pandemia? Há motivos para otimismo?

Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli – O interessante é que, na semana do profissional da Química este ano, o que foi falado e se tornou bem característico é que estamos em um momento de transformações, de mudanças. Um momento em que os empreendedores vão subir muito. Os CRQs que atuam de maneira mais forte junto às empresas vão ter de se repaginar para acompanhar a atuação dos profissionais empreendedores. Isso ficou muito caracterizado, é uma particularidade. Inclusive uma das questões que também foi abordada por vários palestrantes é a tendência da valorização dos produtos locais, regionais. Mais uma proposta para que esses novos empreendedores com estratégias totalmente diferenciadas venham surgir. Em cima disso fizemos a aposta: as empresas consolidadas vão passar por essa pandemia. Outras provavelmente vão parar as atividades, pelo menos até reencontrarem seu equilíbrio. Mas esse novo empreendedor que surge acho que vai abrir uma boa perspectiva para a classe dos profissionais da Química.

6) Qual mensagem a senhora deixaria para os estudantes e profissionais de Química do seu Estado e do país?

Maria de Fátima da Costa Lippo Acioli – A Química está em tudo! Enquanto não nos dermos conta de que é necessário entender a Química, compreender pra poder evoluir, teremos problemas. Isso é fundamental. Acho que o recado é esse: percebam a Química no dia a dia, entendam como ela funciona. Há um gap bem considerável na evolução e na contribuição que damos à sociedade. Para ocupar o melhor espaço no mercado de trabalho, o profissional de Química tem de estar “antenado”. Precisa saber o que está surgindo no mercado, precisa entender línguas estrangeiras, se globalizar, se universalizar. A Química não é só Brasil, é preciso entender esse contexto mundial para conseguir identificar quais são as diretrizes que nos regem aqui e no Exterior. Quem não se “antenar” ao que acontece no mundo vai ficar batendo numa tecla que não tem muito futuro.