Notícias

“Os químicos terão um papel importante no pós-pandemia e ainda muito tempo depois”

Gilson Mascarenhas, presidente do Conselho Regional de Química da 14ª Região (CRQ XIV), é o responsável pelas atividades do Sistema CFQ/CRQs nos Estados do Acre, Amazonas, Rodônia e Roraima, uma área gigantesca ocupada em grande parte pela Floresta Amazônica e que envolve 3.551 profissionais e 2.228 empresas registradas.

Mascarenhas preside também o Colégio de Presidentes (COPRESI), um órgão ligado ao CFQ e que reúne os presidentes dos conselhos regionais, uma estrutura criada pela atual gestão para ampliar a integração e a cooperação entre os entes que compõem o Sistema. Mascarenhas é a marca da determinação, com grande empenho em desenvolver a Química na Região Amazônica sem esmorecer diante das circunstâncias adversas. Mesmo selecionar fiscais para proteger a sociedade e os profissionais da Química é um desafio com percalços adicionais em muitos locais. Leia a síntese da entrevista:

1) Como o senhor caracterizaria a Química na região abrangida pelo CRQ XIV? Quais setores são os mais representativos?

Gilson Mascarenhas – Na Região Amazônica, e falo dos Estados que correspondem ao nosso CRQ XIV, Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia, temos grande diversidade… No Amazonas temos grande número de indústrias, mas a Química mais preponderante é a de serviços e comércio, por conta dos demais Estados. As indústrias se caracterizam muito pelos portes pequeno e médio, são raras as empresas de grande porte.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco de atuação e qual o maior desafio?

Gilson Mascarenhas – O que a gente teve de evolução no Regional foi a parte de Tecnologia da Informação, que a gente procura desenvolver cada vez mais para prestar melhores serviços. O Conselho é muito retrógrado, mas a gente está caminhando para que, até o fim do ano, todos os serviços sejam feitos de forma online evitando o deslocamento do profissional ou mesmo da empresa até o Regional. A gente está fazendo essa implantação pra melhoria dessa Tecnologia da Informação. Sobre os desafios, eles continuam sendo em relação às fiscalizações. Somos quatro Estados… mas a gente abre concurso e temos grande dificuldade nesses Estados em conseguir contratar fiscais. Dou exemplos: temos uma delegacia em Cacoal (RO) em que a gente abriu concurso duas vezes e não apareceram candidatos habilitados para serem fiscais, assim como na delegacia que temos no Acre. Então, continua sendo um grande desafio a parte de fiscalização. No Amazonas a gente conseguiu superar esse nó. Estamos com fiscais treinados e na rua. Era um ponto de estrangulamento que a gente tinha na administração e aqui, em Manaus. Já está sendo resolvido.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico em seu Estado? Como avaliaria os impactos?

Gilson Mascarenhas – Prejudicou muito. Apesar de os Estados, como a gente falou antes, apresentarem diferenças… Trabalhamos com quatro decretos, de quatro Estados diferentes, e analisando todo o tempo como cada Estado se comportava… Tem um momento em que o Acre, Rondônia e Roraima estavam em isolamento, mas a sede do Conselho no Amazonas estava funcionando a pleno vapor, por exemplo. Nos outros Estados, o setor químico teve uma estagnada e isso reflete na arrecadação. Em Manaus, em julho conseguimos detectar uma leve recuperação. Isso é um bom indicio de que a Química está em recuperação no Amazonas.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ XIV? Como se deu sua trajetória?

Gilson Mascarenhas – Quando estudante no (antigo) Segundo Grau, visitei uma indústria da Coca Cola no Acre e disse que queria trabalhar com aquilo. Quem me atendeu lá foi uma Química Industrial e então eu disse a ela que queria ser Químico Industrial. Ela disse: seja Engenheiro Químico, pois aí você pode fazer o que o Químico Industrial faz. Aquilo ficou na minha cabeça e eu resolvi fazer vestibular pra Engenharia Química e acabei fazendo no Pará… Me formei no Pará e voltei pro Acre. No Acre, eu vi que a Química estava muito parada, fui procurar o Conselho Regional e comecei a questionar algumas coisas no Conselho… Me tornei delegado do Conselho no Acre e, ato contínuo, fui trabalhando lá e acabei convidado a ser conselheiro pelo sindicato e comecei a prestar serviços lá, virei secretário do Conselho e por algumas contingências que a vida nos traz, algumas surpresas, acabei chegando ao cargo de presidente… Quando cheguei no Acre, procurei saber como estava a Química e havia muito pouco. Havia a Química desenvolvida pelos professores, dentro da Universidade Federal do Acre. Estava muito restrita ao nível acadêmico. Isso chamou atenção, pois existe Química fora da Universidade e é dessa Química que eu mais gostava, a tecnológica, de produção, de controle de qualidade… A minha busca foi para que se ativasse o mercado da Química no Acre.

5) Como será a Química no pós-pandemia? Há motivos para otimismo?

Gilson Mascarenhas – A gente verificou que a Química passou a ser mais observada com o período da pandemia. Descobriu-se que os químicos foram necessários durante a pandemia e que os químicos terão um papel importante no pós-pandemia e ainda muito tempo depois. A Química vai ser mais levada a sério por conta dos cuidados que a própria população vai ter que ter. A tendência é de melhorias de qualidade e desenvolvimento de novos rumos, um crescimento tecnológico muito grande.

6) O senhor preside o Colégio de Presidentes (COPRESI), um órgão que vem ganhando muito prestígio no Sistema CFQ/CRQs. Como se dá essa relação?

Gilson Mascarenhas – O COPRESI foi implantado na gestão do atual presidente do CFQ, José de Ribamar Oliveira Filho, e por conta de todo apoio que ele nos dá o COPRESI goza de um destaque muito grande e um conceito muito bom junto à diretoria do CFQ e aos conselheiros federais e também aos presidentes dos conselhos regionais. Através do COPRESI, as reivindicações individuais de cada Conselho são analisadas, discutidas e encaminhadas e são acolhidas, quando possíveis, de forma muito receptiva. A relação entre COPRESI e CFQ se dá como se fosse uma coisa só. Hoje eu sinto que o COPRESI nunca vai deixar de existir, assim como o CFQ não vai deixar de existir. É um ente que foi pensado e que tem vida própria, mas de forma muito cooperativa, andando lado a lado com o federal.

7) Qual mensagem o senhor deixaria para os profissionais de Química da sua região e do país? E para os estudantes?

Gilson Mascarenhas – A Química para o estudante do Ensino Médio é um “bicho papão”, junto com a Física, é considerada um bicho de sete cabeças. Mas eu digo que para o profissional que se especializa e que tem vontade de trabalhar com isso… e não estou dizendo que quem não tem trabalho tem culpa nisso ou não tem vontade.. Existem empregos. Mas, como toda profissão, nos grandes centros, nas grandes cidades, já começa a se ter dificuldades para encontrar esse espaço. Mas eu ainda entendo que a Química tem um campo de trabalho muito grande pra se trabalhar, com espaço inclusive pra quem pretende ser empreendedor: você tem o know-how  e a tecnologia pra que você monte um serviço ou uma indústria ou comércio na área de Química. Esse campo ainda está aberto para os profissionais.