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“Os conselhos sempre tiveram atuação forte junto aos estudantes. É algo que temos de resgatar”

Para o presidente do Conselho Regional de Química da 3ª Região (CRQ-III), Rafael Almada, a Química foi uma vocação construída ao longo do tempo. E, nessa autodescoberta que o levou a seguir carreira no universo da ciência, o CRQ do Rio de Janeiro teve um espaço privilegiado: foi o conselho que apresentou a Química a ele e a muitos estudantes da sua geração – uma vocação do Sistema CFQ/CRQs, que, na opinião dele, se perdeu. Almada responde por um dos maiores CRQs do país, com 26.526 profissionais e 2.591 empresas registradas e falou um pouco sobre os desafios que envolvem o CRQ III em tempos de pandemia. A síntese da entrevista:


1) Como o senhor caracterizaria a química em seu estado? Quais setores são os mais representativos e que profissionais têm mais campo de atuação?

No Rio de Janeiro uma coisa muito forte sempre foi a questão da indústria petroquímica. A gente tem outras indústrias de transformação e alguns antigos parques industriais que o Rio ainda mantém, muitos deles favorecidos pela indústria do petróleo.

2) Qual tem sido o foco de atuação do CRQ-III? Qual o maior desafio no estado do Rio?

A gente tem um trabalho muito intenso de fiscalização. Temos poucos fiscais, mas somos um estado também territorialmente menor. Esse fato tem aqui um impacto menor que em outros estados, somos muito produtivos. Temos uma quantidade muito grande de universidades que formam na área da Química, isso também demanda muito de nós.

3) Como tem sido o enfrentamento da pandemia de coronavírus no setor químico no Rio?

O novo coronavírus teve um impacto muito grande no Rio, somos o segundo estado no número de casos e todo o dia a indústria química e as universidades também são impactadas. Muitos profissionais, pela própria característica da atividade química, seus múltiplos papéis, não foram atingidos no que diz respeito a demissões. Somos uma categoria que teve e tem um papel que envolve o combate à pandemia, na produção de insumos, na indústria relacionada aos próprios produtos de assepsia e aos fármacos. Em termos profissionais, de empregabilidade, não teve impacto. Claro, há indústrias que não são diretamente ligadas a esses produtos. Essas estão tendo e vão ter grande impacto nas vendas.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ? Como se deu sua trajetória?

A história na Química surge a partir do próprio curso técnico. Foi o que me permitiu ter interesse e seguir minha formação, aí fui… O químico, em geral, não deseja ser químico desde pequeno. Ele vai desenvolvendo isso a partir das descobertas, do próprio processo de entender o dia a dia da investigação, da possibilidade de fazer descobertas a partir dos experimentos. Essa coisa prática faz muito o profissional de química ser quem é. Aí, no curso técnico, vi que a Química era uma área de interesse. Segui o roteiro: graduação, mestrado, dourado… O conselho, por sua vez, sempre foi muito presente, sempre teve uma atuação muito forte junto aos estudantes. É uma coisa, inclusive, que acho que temos de resgatar. O CRQ do Rio de Janeiro conseguia fazer essa aproximação. Havia concursos de monografias, e eles eram extremamente concorridos. Sempre tinha uma comemoração muito intensa no Dia do Químico, aproximava os estudantes de verdade. No meu caso, é uma relação que sempre foi muito forte, desde estudante, e que se estabeleceu depois como profissional. Pude contribuir como conselheiro. Até chegar a presidência foi um fator de processo, de diálogo, de construção. Estamos fazendo esse trabalho de fortalecimento que a gente sabe que é necessário, de ter uma boa relação com os estudantes, com os profissionais. O Rio tem perdido muitas indústrias químicas para outros estados, por questões político-administrativas ou econômicas. A gente tem tentado retomar isso. O setor químico está muito relacionado à economia. Se a economia vai bem, vamos bem. Se está tudo meio confuso, isso gera uma grande dificuldade ainda maior para o setor químico.

5) Qual ensinamento restará do enfrentamento dessa pandemia? Há motivos para otimismo?
Otimismo, sim. A pandemia tem um começo e um fim. A gente historicamente sabe disso, foi dessa maneira em outras situações e outras pandemias. Isso vai passar e a gente vai conseguir fazer a retomada, o que inclui o setor químico. Inclusive aqueles profissionais que tiveram perdas neste período, se a gente focar num desenvolvimento que possa privilegiar o desenvolvimento industrial, isso ajuda e muito o setor químico. Tenho esperança de que a gente muito em breve vai sair deste momento e com uma contribuição grande do setor químico. Vamos estar presentes na descoberta de fármacos e de produtos que possam reduzir o impacto da pandemia, pode acreditar. A gente tem um grande potencial, o de cada vez mais colocar a indústria química como um dos polos de desenvolvimento deste país.

6) Qual mensagem o senhor (a) deixaria para os profissionais de Química do seu estado e do país? E para os estudantes?

A química é uma grande ciência, que permite enorme diversidade de atuação. Em primeiro lugar, eu diria que o espírito investigativo é um componente muito importante para um bom químico. Se você sente a necessidade de ter respostas para fenômenos que a gente identifica na natureza, se isso mobiliza você, na Química você estará no caminho certo.  Segundo: as possibilidades de trabalho. Na área da Química, você trabalha desde a indústria alimentícia, petroquímica, passando pelo fármaco e pela indústria de plásticos. Tem uma infinidade de possibilidades e você tem de encontrar seu caminho. O diferencial é o profissional que se especializa, esse tem valor agregado no mundo do trabalho. É importante encontrar esse caminho que te qualifica, te especializa e te torna um profissional diferenciado na sua área.