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“O mundo está em meio a uma transformação e Química, o que é, senão transformação?”

Suzana Aparecida da Silva, presidente do Conselho Regional de Química da 16ª Região (CRQ XVI) não foi um caso de amor à primeira vista pela Química: na juventude, o curso na área só entrou no radar porque era o menos concorrido no vestibular. Mas, o amor é duradouro e, para ela, “todos deveriam estudar Química”. Suzana se considera uma privilegiada. Preside o CRQ XVI no momento em que o Estado de Mato Grosso passa por uma “transformação”, deixando para trás um passado de mero produtor agrícola para uma nova realidade, de produtos beneficiados e tratados pelo setor industrial do próprio Estado. Diante de um CRQ que conta com 592 empresas e 1.677 profissionais registrados, Suzana mostra um indisfarçável otimismo. A síntese da entrevista:


1) Como a senhora caracterizaria a Química em Mato Grosso? Quais setores são os mais representativos?

Suzana Aparecida da Silva O Estado do Mato Grosso está passando por uma transformação. Por muito tempo fomos pioneiros e predominantes na produção de matéria-prima e no fornecimento dessa matéria-prima para todo o país. Tanto na pecuária, quanto na agricultura, com a soja. Mato Grosso passa por uma transformação porque começa não mais a fornecer a matéria-prima mas sim a processá-la. A gente produz, tem uma pecuária bastante promissora, mas por outro lado o Estado passou a contar com inúmeros frigoríficos, curtumes, indústrias de alimentos que acabaram surgindo e isso realizou essa transformação. No caso da agricultura, o mesmo se deu com os grãos, não apenas a soja, mas também o milho, que a gente começou a processar muito fortemente. Há ainda uma crescente indústria sucroalcooleira. O Mato Grosso está tendo desenvolvimento grande nesse setor na produção de álcool e há a produção de derivados de cereais. Somos uma transformação, com o beneficiamento daquilo que sempre produzimos, agregando valor.

2) E a atuação do CRQ XVI? Qual tem sido o foco e quais são os desafios?

Suzana Aparecida da Silva O maior desafio é acompanhar esse avanço tecnológico. Como não tínhamos esse desenvolvimento, o Estado do Mato Grosso fornecia cursos da área da Química mas muito limitados, voltados para Licenciatura e para pesquisa, com bacharelado, técnicos de nível médio. Só pra termos uma ideia, aqui a Universidade Federal de Mato Grosso, que tem 50 anos, está com sua primeira turma de Engenharia Química. Não temos nem egressos ainda desse curso. É um curso novo e, com a chegada do Instituto, outros cursos estão chegando na área da tecnologia. O nosso maior desafio no CRQ XVI é avançar nos cursos tecnológicos. O próprio CRQ já está realizando uma enquete pra saber se esses profissionais do Mato Grosso tem pretensão de fazer uma complementação tecnológica para que a gente possa viabilizar isso, para o profissional e para o Estado.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico mato-grossense? Quais foram os impactos?

Suzana Aparecida da Silva No setor químico houve impactos, claro. Mas eu confesso que achava que esse impacto seria maior. O único termômetro de que dispomos hoje para mensurar isso são nossas solicitações de cancelamento, de isenção e isso não se deu de forma muito elevada. Digamos que ficou dentro da normalidade. De parte das empresas, também. As grandes empresas que temos dentro do Estado conseguem se manter em uma certa normalidade. As grandes se encontram na área de usinas de biocombustível e esses setores não foram muito afetados no Estado, ao contrário. Estamos até tendo uma demanda maior de indústrias se instalando em Mato Grosso exatamente nesses setores, no processamento do milho para produção de etanol. Não consigo mensurar essa evolução ainda!

4) Qual é sua História com a Química? E com o CRQ XVI?

É difícil falar sobre como fui parar na Química, sabe (risos)? Eu entrei num curso de Química porque terminei o Ensino Médio, bem jovem, e queria entrar na faculdade. O primeiro curso que me veio na cabeça pra entrar foi Química porque era o menos concorrido, ninguém queria fazer (risos). De fato, fiz o vestibular e ingressei… Porém não tive nenhuma dificuldade com o curso, tanto que acabei fazendo dois cursos: fiz a licenciatura e depois o bacharelado. Obviamente me apaixonei pela Química por conta da licenciatura e fui tocando e pronto… Foi assim. Já no CRQ XVI eu entrei porque quando terminei meu curso o professor Ali Veggi Atala, que hoje é conselheiro federal, estava ainda professor, na antiga Escola Técnica, e estava coordenador…. Aí ele me convidou pra ser professora substituta lá. Coincidiu exatamente com o período em que a escola estava escrevendo o projeto pedagógico do curso, de sua primeira turma de Química. Na época, ele estava ainda preocupado com formar profissionais na área da Química e não garantir a posição no mercado de trabalho. Foi aí que ele começou a fazer um trabalho junto ao CFQ para criar o CRQ de Mato Grosso, já que aqui estávamos ligados ao CRQ de São Paulo. Aí ele foi bem sucedido e trouxe o CRQ para o Estado. Como eu estava professora na época, acabei juntamente com ele focada em estabelecer o conselho. A minha relação com o CRQ XVI vem desde a criação porque estávamos preocupados em garantir o mercado de trabalho para os egressos dos cursos de Química. Sou uma apaixonada pela Química e, em especial, pela categoria. Primo muito pelo exercício da profissão.

5) Na Química pós-pandemia, há espaço para otimismo?

Suzana Aparecida da Silva Devemos ser otimistas. Vejo que nessa crise toda nós conseguimos olhar para o todo, olhar para o horizonte, e ver que nós temos muito com o que contribuir.. Porém, essa contribuição agora está mais objetiva. Dava uma impressão de que estávamos dando tiros pra todos os lados, estávamos muito dispersos, muita energia direcionada para se conseguir pouca coisa. Acredito que hoje conseguimos ter um foco melhor, de saber o que nós queremos. E, a partir disso, o que podemos fazer para que as coisas de fato aconteçam. Os profissionais da Química têm totais condições de realizar. O mundo está em meio a uma transformação e Química, o que é, senão transformação? É a transformação da matéria. Estamos em uma oportunidade ímpar para, de fato, termos a sociedade olhando para a Química com outros olhos, como aliada. Vai nos ver como indispensáveis mesmo… Não estamos aqui para fazer apenas a cura, remediação. Somos aptos a atuar também na prevenção. Estamos otimistas e temos de ver como oportunidade para vislumbrar um futuro muito melhor.

6) Qual mensagem a senhora deixaria aos estudantes e profissionais de Química? A Química vale a pena?

Suzana Aparecida da Silva Nossa, vale muito a pena! Eu acho que todo mundo deveria estudar Química (risos)!  Já pensou? Acho que em tudo vale, em todos os setores. A Química passa por essa transformação, desde a docência. Hoje nós não vamos conseguir mais ensinar Química que não seja de fato necessária. Não consigo mais entrar em uma sala de aula, ensinar determinados conteúdos, se não fizer de fato sentido para aquele aluno. Precisamos de profissionais muito atentos a isso. Há muito o que estudar e em todos os sentidos. A tecnologia hoje deve estar focada na sustentabilidade, na tecnologia limpa. Temos um futuro promissor, há muita coisa a ser desenvolvida, muita coisa a ser melhorada. Se vale a pena estudar algo hoje em dia, esse algo é a Química.