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“O futuro está nos pequenos negócios, envolvendo profissionais da Química e de outras áreas”

Paulo Roberto Bello Fallavena é o presidente do Conselho Regional de Química da 5ª Região (CRQ V), com atuação no Rio Grande do Sul. Experiente e conhecedor profundo da Química gaúcha, ele defende uma abordagem realística do segmento econômico, de seu mercado de trabalho, e das condições dadas pela ordem mundial. Fallavena é um entusiasta do associativismo, das pequenas empresas e, com otimismo, enxerga grandes possibilidades para os profissionais da Química – dentro de alguns campos de atuação que ele avalia mais promissores. O CRQ V tem 16.179 profissionais e 4.129 empresas registradas. Veja a síntese da entrevista:

1) Como o senhor caracterizaria a química no Rio Grande do Sul? Quais setores são os mais representativos?

O Estado do Rio Grande do Sul é, principalmente, agropecuário, porém, temos outras grandes áreas de atuação por aqui que precisam ser mencionadas. Podemos destacar as vinícolas, por exemplo. No setor de vitivinicultura nós temos mais de mil empresas produzindo vinhos, espumantes ou sucos. Essa é a maior extensão em número de empresas do país. Temos o setor frigorífico e de curtumes, que, apesar da crise no setor calçadista, ainda é muito forte. Temos também o setor de alimentos, que é grande e diversificado, o setor metal mecânico, petroquímico e muitos outros. Além disso, temos o setor de bebidas, que tem uma característica interessante: o Estado do Rio Grande do Sul tem um grande número de micro cervejarias, o que demonstra uma vocação para os pequenos negócios. Lembrando que esses números são datados de antes da pandemia e das dificuldades econômicas impostas por ela.

2) E tem ainda o Polo Petroquímico de Triunfo…

Sim, o setor petroquímico. O nosso polo já foi bem maior do que hoje em número de empresas, apesar de atualmente estar produzindo muito mais. O polo petroquímico é um enorme empreendimento do setor químico aqui no RS.

3) E a atuação do seu CRQ V? Qual o maior desafio no momento?

O desafio, creio que de todos os CRQs, é que nós temos em torno de 4 mil empresas e cerca de 16 mil profissionais, sendo que esse número está subdimensionado. Existe uma série de setores que não conseguimos alcançar, com profissionais trabalhando sem inscrição. Podemos exemplificar alguns de nossos desafios de mercado: o setor leiteiro, por exemplo, que é muito grande aqui no Estado, está com problemas. Ocorreram eventos a pouco tempo neste setor, onde foram constatadas diversas irregularidades na qualidade dos produtos. Isso se deve ao fato de que o Conselho Regional de Medicina Veterinária entrou com ação contra o CRQ-V para que as indústrias de laticínio não estivessem vinculadas à química, mas sim ao veterinário. O processo foi julgado e o juiz, erroneamente, afirmou que a indústria de laticínios não tem processos químicos e, consequentemente, não necessita estar vinculada ao CRQ, nem mesmo precisa de químicos. Atualmente, os médicos veterinários são os responsáveis técnicos pela produção de leite e nós temos problemas seriíssimos com a bebida (ele se refere a Operação Leite Compensado, do Ministério Público do RS, que ao longo de 6 anos condenou mais de 20 pessoas por fraudes). A partir destes eventos, as empresas começaram a contratar profissionais da química para realizarem os controles, mas não como responsáveis técnicos, apenas para manter a qualidade do leite. Isso parece absurdo, mas na verdade o que está acontecendo é que a nossa legislação está muito defasada da realidade atual. Na indústria vinícola foi a mesma coisa. As empresas resolveram se unir e entrar com ações individuais contra o CRQ, alegando não serem indústrias químicas, e mais uma vez os juízes entenderam que o processo de produção de vinho não caracteriza como indústria química. Teriam eles esquecido os processos de fermentação e todos os produtos que são adicionados? Este fato, mais uma vez, demonstra que a nossa legislação está defasada. Como são muitas indústrias de produção de vinho, espumantes e outros, evidentemente são a maior demanda da comissão de ética.

Nossos impasses residem na fiscalização e nessas questões jurídicas e judiciais, que nos deixam sem ação. A nossa legislação foi feita em 1956 e nunca mais sofreu modificações. É importante lembrarmos que a Química é fundamentalmente movida pela novidade, pela inovação. Tem processos hoje que nem tinham sua existência cogitada em 1956. A legislação precisa ser atualizada.

4) No seu entendimento, como tem sido (ou como se deu) o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus no setor químico do Rio Grande do Sul?

Com a prorrogação o pagamento das anuidades para o final de junho, estamos com uma inadimplência de cerca de 40%. Não sabemos ainda como será após essa data. Só vamos poder compreender realmente o que de fato aconteceu na indústria depois que esta pandemia tiver sido debelada e que comecemos a voltar à normalidade. O que podemos vislumbrar é que existe um fator politico por trás dessa pandemia, não só no Brasil, mas no mundo todo, mas isso é uma outra história.

5) Como foi sua trajetória pessoal na Química? E dentro do CRQ?

Sou químico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Fiz Licenciatura em Química e depois o Químico na PUCRS. Trabalhei, então, no antigo Departamento do Meio Ambiente, com análises químicas, absorção atômica, cromatografia gasosa e outras análises químicas. Neste mesmo período me convidaram para participar do Sindicato dos Químicos do Rio Grande do Sul. Continuei trabalhando nessa área em paralelo com a presidência do sindicato. Nesse ínterim eu participei da Federação Nacional dos Profissionais da Química, convidado pelo professor Jesus (Miguel Tajra Adad, ex-presidente do CFQ). Houveram problemas na federação, desentendimentos, e eu acabei saindo. Neste período acabei me aproximando muito do CRQ-V. Vimos, eu e o meu grupo do sindicato, a grande oportunidade de entrar para o conselho e fazer uma politica de aproximação com o CFQ, que nesta época era oposição. Conseguimos ganhar a eleição. Neste período pude concluir o mestrado e doutorado em Ciências Farmacêuticas para aprimorar meus conhecimentos da Química aplicada à Farmácia.

6) Passada a pandemia, há motivos para otimismo? Quais seriam?

Apesar de ser um otimista por natureza, diante dessa crise sanitária e politica estou um pouco descrente de que as coisas voltarão a ser como antes. Independente disso, acho que temos motivos sim. Podemos e devemos achar as coisas boas nos momentos ruins. Vejo muitas frentes se abrindo neste momento, inclusive na Química. O futuro está nos pequenos empreendimentos, envolvendo profissionais da Química ede outras áreas. É necessário que se unam. Assim como é o exemplo das cervejas artesanais, você tem mais mil exemplos. Pode-se trabalhar com cosméticos, domissaneantes e outros produtos que se tornam essenciais em tempos de crise sanitária.  No momento a moda é o álcool gel.  Eu lembro bem que, alguns profissionais e até professores dos cursos de graduação, faziam pouco caso destas áreas de domissaneantes e cosméticos. Hoje eles viraram a febre do momento. Enfim, existem mercados para essas coisas pequenas. As coisas grandiosas já estão nas mãos dos grandes. Precisamos entender o que está acontecendo no mundo e encontrar o que sobra para nós, aqui no Brasil. As politicas de soberania nacional estão sendo combatidas violentamente, disfarçadas em ideias “progressistas”. Sobra pouco para nós, mas aquilo que sobra deve ser inteligentemente usado.

7) Qual mensagem o senhor deixaria para os profissionais de Química e para os estudantes?

Acredito que a melhor mensagem que eu poderia deixar é a de que as coisas vão melhorar. Aos estudantes eu digo: se preparem cada vez mais para serem empreendedores, pois o mercado está se voltando para as pequenas empresas, onde os custos são menores e a qualidade é maior. Aos profissionais que estão atuando e os que estão sem trabalho, eu diria que devem continuar a sua qualificação, pois é somente assim que as coisas vão melhorar. Procurem os mercados mais atuantes para conseguirem trabalho, não aqueles que são mais vistosos. Você tem 3 caminhos na química: lecionar, trabalhar em indústria ou ser dono de um empreendimento. Você tem que escolher um deles e se preparar para isso.