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“O fiscal existe para proteger a sociedade e preservar o espaço exclusivo dos profissionais.” 

A presidente do CRQ I, Sheylane Luz, é um exemplo de dedicação à Química. A combinação de uma carreira profissional bem-sucedida na iniciativa privada com sensibilidade e conhecimento da realidade dos profissionais de Pernambuco faz com que ela venha tendo um papel decisivo na condução do Conselho em meio à pandemia e à crise de desemprego agravada pelo novo coronavírus. O CRQ de Pernambuco tem 4.740 profissionais e 1.472 empresas registradas. Leia a seguir um resumo da conversa:

1) Como a senhora caracterizaria a química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos e que profissionais têm mais campo?

A Química em Pernambuco é bem diversa. Além de toda a parte de pesquisa, no âmbito das universidades, temos indústrias do setores sucro-alcooleiro, de alimentos, de plásticos, de higiene, de limpeza, de cosméticos, cimentos, dentre outras. Temos também, a indústria do setor automotivo, na qual são fabricados vários componentes dos veículos, que demandam o trabalho dos profissionais da Química. Não podemos esquecer do setor petroquímico, que passou por dificuldades recentemente, mas já está em recuperação.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco? Qual o maior desafio?

Em 2020, o maior desafio é a pandemia. As atividades do CRQ I estão limitadas porque no momento em que a pandemia atingiu o país ela provocou grandes impactos no emprego. O Sistema CFQ/CRQs acertadamente prorrogou o pagamento das anuidades até o fim de junho. Mas mesmo antes da pandemia, nos últimos 2 ou 3 anos, vínhamos enfrentando uma crise de empregos. O profissional espera é que a gente o auxilie na busca pela recolocação. O principal problema é empregabilidade. E uma das principais “armas” dos CRQs na busca pela empregabilidade é a fiscalização. Precisamos fazer com que o profissional entenda que a fiscalização não é algo ruim. Uma das tarefas do conselho é verificar se as empresas pertencem ao setor químico e, em caso positivo, se estão empregando devidamente profissionais da Química. Já encontramos empresas em que psicólogos exercem atividades de Químico, fazendo análise. Nesse caso, a gente orienta a empresa para que se ajuste, e empregue um profissional da Química para tal tarefa. É importante quebrar o paradigma de que “nossa, que chato, o fiscal chegou aqui na empresa”. O fiscal existe para proteger a sociedade e, preservar o espaço exclusivo dos nossos profissionais.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de coronavírus no setor químico em seu Estado? Como avaliaria os impactos?

Alguns setores importantes, foram bastante impactados com esta pandemia. Temos um exemplo aqui uma indústria do segmento de vidros planos, que estava parada desde março, e retornou há poucos dias. Por sorte não desligaram o forno, pois para religá-lo se teria um custo de cerca de R$ 70 milhões. Cimentos, rejuntes, mantas de impermeabilização… São setores industriais prejudicados porque a construção civil, considerada não essencial, parou por bastante tempo. Noutro cenário, as empresas produtoras de produtos saneantes e higiene, se mantiveram estáveis, e em muitas delas houve incremento no seu faturamento. A Química foi classificada como setor essencial, o que ajudou muitas empresas a visualizarem um nicho de mercado. Muitas empresas, por exemplo, se registraram para produzir álcool. Torcemos para que tudo passe logo, para que a as empresas de Pernambuco voltem a operar a todo vapor.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ?

Quando era menorzinha, ganhamos um brinquedo chamado Alquimia. E essa alquimia era um brinquedo que eu gostava até mais que meus irmãos – naquele tempo, era um brinquedo só, pra todo mundo. Eu queria fazer química, mas ao mesmo tempo era muito desastrada. Minha mãe chegou a perguntar se eu tinha certeza… (risos). Passei no vestibular para Química Industrial, na Universidade Católica de Pernambuco. Tive a sorte de fazer bons estágios. Um foi no Instituto Tecnológico de Pernambuco, um laboratório de referência no Norte e Nordeste em análise da presença de agrotóxicos em frutas pra exportação. Depois ainda fiz estágio no Conselho de Química. Ficava junto dos fiscais e conheci indústrias de todo o tipo, têxtil, alimentos, cimentos… Foi um estágio que me deixou dentro da indústria e muito bem posicionada para um emprego. Me formei, e então fui pra Caruaru (PE) morar sozinha, logo eu que nunca havia dormido fora de casa. Sou muito grata por tudo isso, acabei casando com um químico licenciado. Temos a química perfeita dentro de casa (risos). No CRQ voltei depois de um tempo como Conselheira, em 2016 fui eleita vice-presidente, e em 2017 fui eleita a primeira presidente mulher do CRQ-1, para o mandato 2018-2020. Está sendo muito gratificante poder colocar o conselho num patamar de destaque, e conseguir valorizar cada vez mais nossos profissionais.

5) Qual herança, qual ensinamento restará do enfrentamento dessa pandemia, para você e para os profissionais da Química? Há motivos para otimismo?

Temos motivo para otimismo, mas não acredito em nada em curtíssimo espaço de tempo. Empresas estão tomando fôlego agora para a reação. Algumas vão demandar um esforço a mais. As que se enquadraram como essenciais a vida viram até uma oportunidade de crescer, como disse antes.

6) Qual mensagem a senhora deixaria para os profissionais de Química? E para os estudantes?

Conhecimento é a base de tudo e o profissional sempre tem de estar atualizado, ele não pode depender só da empresa. Muitas empresas dão qualificação pra seus funcionários, mas outras, não. Se você atua numa empresa que não tem essa preocupação, busque você mesmo o conhecimento. Vá fazer uma pós-graduação, um curso de pequena duração. Até gratuitos e online, com valor baixo. O importante é mostrar que você é um profissional atualizado e que também está em busca do conhecimento. Daqui a pouco a gente vai ter outro cenário, as empresas começarão a contratar e, vamos poder respirar melhor.