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“O ensino precisa muito empolgar os estudantes de Química. Essa é a nossa vez”

A presidente do Conselho Regional de Química da 18ª Região (CRQ XVIII), Sandra Maria de Sousa, não tinha pretensões ambiciosas quando se deu conta de que na Química marcaria sua vida profissional: ainda jovem, vivendo “no interior do interior do Piauí”, ela se atentou para a área ao ver o trabalho de dedetização, de proteção das lavouras de soja da região das pragas que traziam dor de cabeça aos produtores. 

De lá pra cá, se envolveu no trabalho de fundação do CRQ piauiense, uma estrutura vista como muito importante para atender aos profissionais e fomentar o crescimento industrial no Estado. O CRQ XVII tem 734 profissionais e 245 empresas registradas. Leia a síntese:

Quais são os destaques da química do Piauí, que setores a caracterizam?

Sandra Maria de Sousa – Na realidade, o que mais se destaca é o ensino de Química, principalmente na Universidade Federal. É o setor que tem mais doutores. Mas a gente “arranha” um pouco na questão do tratamento dá água. Nós temos a Água de Teresina, que é uma empresa grande, que atuamos bem. Também tem algumas indústrias de saneamento, mas tudo mais ou menos “acanhado”, vamos dizer assim. Pra nós aqui, o que mais destaca é questão do ensino de Química, tanto na Universidade Federal e Estadual quanto nos Institutos Federais.

Com relação ao CRQ XVIII, qual o maior desafio que vocês enfrentam, qual a conquista que a senhora acha interessante contar durante o seu período?

Sandra Maria de Sousa – Eu só estou como presidente do Conselho há um ano. Pra mim, hoje, o maior desafio é a questão da fiscalização. Nosso Estado tem dimensões continentais, como o Brasil. Lugares muito inacessíveis. E, no Interior, a nossa preocupação é a questão do tratamento da água, do fornecimento de água. Mas é uma coisa que estou tentando vencer e organizar. Terminando essa pandemia, a gente tem que encontrar uma forma de vencer essa batalha da questão da fiscalização por conta das distâncias e dos locais que são inacessíveis. Tem lugares que realmente é muito complicado de chegar.

No seu entendimento, como está se dando o enfrentamento da pandemia no setor químico do Piauí. Teve impacto? Como foi?

Sandra Maria de Sousa – Eu acho que no mundo inteiro e no Brasil os químicos não negaram fogo. A gente se destacou. Hoje, na minha opinião, tanto no Piauí quanto no Brasil, nós somos protagonistas dessa situação. Estamos enfrentando a questão das cabines, que as pessoas insistem em colocar e a gente tá mostrando a cada dia na imprensa, através dos nossos conselheiros, que são bastante atuantes, a importância dessa questão das cabines que não são bem-vindas neste momento. Pode até ser que no futuro elas sejam bem mais divulgadas e utilizadas. Mas neste momento, a gente acha muito perigoso. A outra parte que a gente enfrenta é a questão da fiscalização da fabricação de álcool gel. Por conta dessa pandemia houve uma liberação para que ficasse mais acessível, mas a gente tanto está orientando quanto fiscalizando empresas que não são do ramo.

Sobre sua experiência pessoal, como a senhora foi parar na área da química? E como chegou ao CRQ XVIII?

Sandra Maria de Sousa – Eu sou do interior do interior do Piauí. Eu sou da área de Cerrados e desde que eu comecei a estudar, lá tinha uma área de plantação de soja etc. E as pessoas sofriam bastante com a questão das dedetizações que eles fazem, o tratamento das pragas. Isso me influenciou bastante na escolha do meu curso. Tanto que eu vim pra capital, consegui fazer o curso. Na época só tinha licenciatura, eu fiz licenciatura. Terminei fazendo uma especialização, pós-graduação na área de indústria. Entrei na área de medicamentos, depois entrei na área de saneantes e sempre ao lado do Conselho. Nós estávamos atrelados ao Ceará e com a ajuda muito forte do Dr. Jesus (Miguel Tajra Adad, então presidente do CFQ) e do Dr. Cláudio, a gente conseguiu fundar. Eu sou da época da fundação do Conselho, há 20 anos. Pra mim era muito importante que a gente tivesse esse Conselho aqui porque ficava mais fácil a gente lidar. Foi indo e eu terminei ficando. Fui conselheira muito tempo, até chegar aqui nessa presidência.  E hoje acho que a gente já conquistou nosso espaço aqui no Piauí. Apesar de ser um dos menores Conselhos, a gente procura fazer o nosso papel frente à sociedade. Nós estamos com essa questão das mídias. Semanalmente quando tem alguma coisa importante fazemos a divulgação, até nos aliamos a Polícia Federal com a questão dos produtos químicos. A gente fez um treinamento e foi muito bem aceito aqui na Universidade Federal. E isso só tem feito com que o Conselho ficasse mais visto, sem contar que o CFQ, nesses últimos dois anos, tem dado um salto muito grande e proporcionado muitas oportunidades de a gente realmente aparecer e de estar à frente de muitas ações. E isso é muito bom.

Quando a pandemia acabar, como vai ser o cenário da Química? Tem motivos para ser otimista?

Sandra Maria de Sousa – É o seguinte: o antigo não vai mais voltar e isso a gente já tá bem consciente. Nós temos uma tecnologia muito avançada. Não podemos negar que o Brasil está a frente de muitas coisas, apesar das dificuldades, apesar de muitos desmandos em nossas instituições de ensino e de pesquisa. Não podemos negar que temos tidos muitos ataques. Mas pós-pandemia, o químico, como profissional, vai ter destaque porque nós vamos precisar do químico como de qualquer outra profissão ligada a saúde… Apesar de não considerarem, eu acho que a química está 99,9% ligado a área da saúde. Estamos relacionados à saúde em todos os aspectos: pesquisa de medicamento, de ambiente, de água, de tudo. Então, acho que essa é a nossa deixa. Os químicos mais do que nunca tem que trabalhar no sentido de jamais a gente ser surpreendidos como agora fomos em relação ao coronavírus. Nós fomos pegos de calça curta. O coronavírus venceu a gente por muito tempo… Agora que a gente tá começando a aparecer com propostas de vacinas, mas ainda vai sofrer um pouco. Depois disso, vai ser um novo realmente muito diferente: na questão da higiene, a questão do comportamento individual de cada um. A gente vai ter que crescer muito e nós químicos, nas áreas de ensino, vamos ter que trabalhar muito a questão dos nossos profissionais.

Qual a mensagem que a senhora deixaria para os profissionais e estudantes de Química? Vale a pena estudar e atuar nessa área?

Sandra Maria de Sousa – Sempre. Sou uma otimista. Sempre vale a pena estudar química. Tem gente que diz que não sabe nada de Química. Eu digo: sabe! Sabe fazer um café? Sei. Então, sabe Química. Sabe fazer um suco? Sabe. Então, sabe Química. E mais do que nunca, nós temos que aproximar a química ao cotidiano das pessoas, dos estudantes do ensino médio, dos estudantes universitários para que eles se empolguem porque Química é o nosso dia a dia, Química é a nossa vida. O ensino precisa muito empolgar os estudantes de Química. Essa é a nossa vez.