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Novas tecnologias para transformar CO2 é o foco do novo Laboratório de Alta Pressão da USP

Encontrar novas formas de capturar e transformar dióxido de carbono de maneira mais sustentável e econômica é o principal objetivo do recém-inaugurado Laboratório de Alta Pressão do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). O Laboratório concentra projetos com essa finalidade e que utilizarão de processos químicos e biológicos, por meio de alta pressão, para capturar e transformar esse gás, que é um dos principais causadores do efeito estufa.

“O objetivo é desenvolver novas tecnologias e alternativas para o problema, visto que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera vem crescendo continuamente”, afirma o coordenador do Laboratório e professor do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP, Claudio Oller.

Oller explica que alguns projetos do Laboratório também se concentram em encontrar solução para o CO2 que é liberado durante a extração do petróleo na área do pré-sal. Segundo ele, a ideia é descobrir maneiras de aproveitar a alta pressão que já existe nas camadas profundas onde é feita a extração, de forma que se gaste menos energia, tanto para separar os gases, como para transformar o CO2 em algo que não cause problemas. “Já é uma tendência fazer esses processos no fundo do mar, tanto em função de usar menos área da plataforma, por uma questão de espaço e custo, como de aproveitar a energia da alta pressão que se tem nas profundezas. Mas, para isso, uma série de estudos e dados precisam ser analisados, pois a pressão é muito alta e se trata de uma nova tecnologia, por isso fizemos esse Laboratório, para experimentar em ambiente de alta pressão”, reforça o professor, que também projetou o espaço.

O Laboratório comporta até 30 pessoas e é um ambiente seguro onde, de acordo com pesquisador, “todos se veem o tempo todo, visto que nunca pode ter ninguém sozinho dentro de laboratórios”.

Oller conta que, hoje, nas plataformas de petróleo, após separados os gases liberados durante a extração, o CO2 é pressurizado novamente para as cavernas de sal, em estado supercrítico (uma condição que não é nem liquido e nem gasoso) e estocado lá. “Trata-se de uma das maneiras mais eficazes de reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mas não se sabe os efeitos que esses reservatórios de CO2 podem provocar ao meio ambiente a longo prazo, sem contar os riscos de vazamento”, completa.

Para tanto, um dos projetos que já está em andamento no Laboratório é o de Bioconversão de CO2 no estado supercrítico por bactérias da Antártida. Segundo Oller, que coordena o projeto, eles descobriram que micro-organismos encontrados em sedimentos coletados do fundo do mar antártico por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) utilizam CO2 como fonte de energia. “Para se reproduzir eles precisam de fonte de carbono e a única fonte lá é o CO2 do ar. A ideia é verificar como esses micro-organismos se comportam em condições extremas, com grande variação de pressão, sem luminosidade e na presença de um CO2 em estado supercrítico, mesmas condições extremas encontradas em cavernas marítimas subterrâneas que serão construídas na área do pré-sal e utilizadas para armazenar o CO2 oriundo da produção de petróleo”.

Para o pesquisador, a expectativa, é a de que os micro-organismos, ao serem injetados neste espaço, transformem o CO2 em outros produtos, que ainda estão em análise. Outro ponto reforçado por ele diz respeito aos produtos líquidos e sólidos os micro-organismos produzem e que ainda estão em pesquisa. “Existe até um projeto com a ideia de apresentá-los também no aspecto artístico, pois são muito belos e diferentes”, explica o professor. Oller reitera que estão conhecendo esses micro-organismos, ainda sem estimativa de tempo, pois é imprescindível tornar o sistema seguro.

O Laboratório integra o Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI), criado em 2015 com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Shell, para pesquisas focadas em inovações que possibilitem ao Brasil atingir os compromissos assumidos no Acordo de Paris. O Acordo é um tratado internacional contra as mudanças climáticas causadas pelo ser humano. Seu principal objetivo consiste em combater o aumento da temperatura terrestre provocada pelo aquecimento global.

De acordo com o ultimo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgado em 2021, a velocidade com que o aquecimento global está ocorrendo hoje é maior do que o que já foi registrado ao longo dos dois últimos mil anos. Além dos planos governamentais para reduzir a emissão dos gases geradores do efeito estufa, pesquisas que buscam encontrar meios de capturar e transformar esses gases é de fundamental importância e, segundo Oller, a engenharia química pode e deve contribuir, pois é necessário inovação. “Usar a Alta Pressão é aproveitar energia, é inovação, é diminuir a necessidade de energia para transformar CO2. O foco do laboratório é criar alternativas com esse fim, pois precisamos avançar para trazer novas soluções para esse problema”, conclui.