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“Não tenham medo da Química”

De um aluno que não era muito fã da disciplina de Química no início do ensino médio a profissional da área e presidente do Conselho Regional de Química da 21º Região (CRQ XXI), responsável por fiscalizar o exercício profissional e difundir a prática da Química no Estado do Espírito Santo, Alexandre Vaz Castro tem uma carreira construída solidamente sobre a Química e suas questões.

Vaz Castro dirige um CRQ que atualmente conta com 716 empresas e 3.425 profissionais registrados e acompanha de perto as transformações que envolvem a indústria química, uma das mais impactadas pela crise do novo coronavírus e o “novo normal”. Ele é um entusiasta das soluções tecnológicas e aposta em um CRQ XXI voltado para o digital no pós-pandemia. A síntese da entrevista:

1) Como o senhor caracterizaria a Química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos?

 Alexandre Vaz Castro – Podemos dizer que os setores de petróleo, celulose, siderurgia e alimentos possuem parques industriais representativos. Por exemplo, na área de petróleo, além dos campos offshore operados pela Petrobras na costa capixaba, a empresa vem vendendo poços onshore (em terra). Está surgindo um mercado interessante. Empresas estão se organizando e adquirindo esses campos em terra, ainda operacionais, o que possibilita um aquecimento na contratação de recursos humanos, principalmente de profissionais da Química. Tivemos uma das indústrias ícone de celulose no Brasil, a Aracruz Celulose (hoje Suzano S/A), a maior produtora mundial de celulose . Temos um complexo siderúrgico importante, com a presença da ArcelorMittal Tubarão e o grupo mexicano Simec.. Além disso, a unidade da Vale S/A, que inclui a principal linha de escoamento do minério de ferro que vem de Minas Gerais e sai principalmente pelo porto de Vitória, por isso nós temos ainda a estrada de ferro Vitória-Minas, que liga o Quadrilátero Ferrífico ao Espírito Santo. Além desses grandes parques industriais, nós temos um setor mineral bem expressivo, um setor de cosméticos bem avançado, em torno de 40 fabricantes! Um setor alimentício fortíssimo, onde destaco uma das marcas de chocolate mais famosa do mundo, a Chocolates Garoto, que fica em Vila Velha, além do setor de bebidas em expansão, com várias cervejarias artesanais e o setor agroindustrial atuante, que inclui, por exemplo, unidades fabris de sucos e polpa de frutas.

2) E a atuação CRQ XXI? Qual tem sido o maior desafio?

Alexandre Vaz Castro – O maior desafio é o “novo normal”. A situação da pandemia trouxe realidades que vão permanecer. Uma delas é cada vez a gente trabalhar mais de forma digital. Coisa que ainda não conseguíamos. Nosso atendimento presencial é muito representativo mas, por conta do coronavírus, tivemos de adaptar todos os nossos serviços para um atendimento praticamente digital de um dia para o outro. O Conselho atualmente não tem estrutura preparada para isso, sofremos com toda a sorte de contratempos. Nesse momento, o nosso maior desafio é trabalhar dentro de um ambiente totalmente digital. E o problema não é só a ferramenta, sabe? Ainda temos muitas pessoas que tem dificuldades ou que ainda são reticentes ao atendimento digital. Ainda tem muito aquela coisa de ter de vir ao Conselho, olhar, fazer as coisas olho no olho e isso é uma realidade que a pandemia mostrou que não pode mais acontecer. Esse é o nosso maior desafio, aliado também à questão do cenário econômico. Também por conta da pandemia, tivemos uma queda de arrecadação na casa dos 30%, só comparando com o ano passado, e olha que a inadimplência vinha crescendo de forma significativa nos últimos anos… e a gente espera que o impacto… ainda seja maior. Todos estamos com as barbas de molho! Precisamos saber da nossa área industrial, se ela vai conseguir se readaptar em menor prazo após a pandemia.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico capixaba?

Alexandre Vaz Castro – Vou ser muito sincero. O setor químico com certeza sofreu impacto, principalmente naquilo que é ligado à cadeia de suprimentos… Teve um aumento do dólar absurdo, e um aumento da importação de produtos químicos… Todos esses fatores vão impactar. Claro, aquela parte da indústria química que produz insumos usados para combater o coronavírus, tiveram um crescimento considerável, como produtos de limpeza e higiene pessoal, gases medicinais, toda a linha de descartáveis para unidades de saúde, embalagens de alimentos, etc. A gente espera que, nessa retomada, em menor prazo, as demais áreas da indústria química possam se reequilibrar. Para ilustrar, temos uma fábrica de embalagens plásticas no Estado e ela produz para todo o país. O engenheiro químico responsável me dizia que, durante a pandemia, houve uma queda enorme no pedido de frascos de uso da indústria de cosméticos, mas em compensação houve um aumento exponencial nos pedidos de embalagens de alimentos, principalmente de menor volume, como iogurtes e etc. Veja, a criançada está em casa e certamente houve um aumento considerável no consumo desses produtos.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ XXI?

Alexandre Vaz Castro – Foi por acaso… Quando estava no primeiro ano do segundo grau, o ensino médio, eu não era um aluno exemplar em Química, se é que me entende (risos). Aí no segundo ano, pintou o concurso do primeiro curso técnico em Biotecnologia do Brasil, no Rio de Janeiro, na Escola Técnica Federal de Química, no campus do Maracanã. Atualmente é o Instituto Federal do Rio de Janeiro, cujo reitor é o nosso colega Rafael Almada (presidente do CRQ III, sediado no Rio). Fiz a seleção, passei em segundo lugar. Era um cenário que indicava a Biotecnologia como a ciência do futuro, junto com a robótica, isso no final dos anos 80. Logo após a minha formatura consegui trabalho na Universidade de Brasília (UnB) na área de Biotecnologia. Desde então, fui progredindo na minha carreira profissional sempre empregando os conhecimentos adquiridos na Escola Técnica, que eu agradeço imensamente. Depois de trabalhar com a área de vendas técnicas, passei no concurso público e trabalho atualmente na área ambiental. A Química transformou a minha vida! E o CRQ XXI tem sido uma experiência engrandecedora!

5) Como será a Química pós-pandemia? Há motivos para otimismo?

Alexandre Vaz Castro – Tenho acompanhado a rede da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), todas as semanas eles têm realizado lives a respeito do pós-pandemia. A expectativa deles, e aí eu faço a minha também, é de que haverá um novo entendimento sobre a globalização, com uma avaliação bem criteriosa sobre a dependência externa. Por isso, é imprescindível uma política de Estado que fomente o desenvolvimento e a defesa comercial da indústria química nacional. Neste momento, as bandeiras da indústria química, como a questão da nova regulação do uso de gás natural, da desoneração, da matéria-prima importada… Tudo isso vai impactar. Sem essas ações internas estruturantes, o otimismo de agora vai sofrer um golpe mortal.

6) Qual mensagem o senhor deixaria para os estudantes e profissionais de Química do Espírito Santo e do Brasil?

Alexandre Vaz Castro – A mensagem final é: não tenham medo da Química. E posso dizer que a minha História de vida profissional, desde o banco da Escola Técnica, é em função da Química e em função dela vivo e devo viver até o final da minha vida profissional e pessoal. Então, por mais desafios e complicações que possam aparecer, a Química ainda é um dos principais mercados e uma das principais atividades humanas. Não desistam da Química, continuem acreditando! Com certeza terão sucesso como eu, graças a Deus!