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Live do CRQ IV discute a produção nacional do IFA

O Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), principal componente para a fabricação de vacinas contra a Covid-19, foi o tema da live promovida pelo Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV), na sexta-feira (5).

Transmitido no canal do CRQ IV no YouTube, o debate contou com a presença do mestre em Química Antônio Carlos Teixeira, diretor executivo da Globe Química; e a doutora em Química e especialista servidora da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Rosimeire Alves da Cruz. O encontro virtual, com uma hora e meia de duração, foi conduzido pelo doutor do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde/Fiocruz Ubiracir Fernandes Lima Filho, químico industrial e membro da Comissão Técnica de Química Farmacêutica do CRQ IV.

Os participantes mostraram bastante preocupação com a produção nacional do IFA e a deficiência de obtenção de materiais sujeitos à Vigilância Sanitária em geral.

Ao falar sobre a importação do IFA e cenário imposto pela pandemia, Lima Filho lembrou que o país contou, nesse período, com a criatividade, principalmente das universidades para suplantar as adversidades, carências e dependências externas. Porém, de acordo com ele, o Brasil reduziu a capacidade de produção do IFA de 55% para 5% em quatro décadas.

Na avaliação do químico Antônio Carlos Teixeira, o governo federal estimulou na década de 1970 a produção nacional com a vinda de empresas farmoquímicas para o Brasil e a transferência de tecnologia. “Mas, o Brasil fez dois movimentos muito ruins em 1990 para esse segmento. O primeiro foi o reconhecimento da Lei de Patentes e, logo após, a aprovação da Lei dos Genéricos”, pontuou.

Para Rosimeire Alves, a dependência estrangeira é muito além dos 5% da capacidade de produção de insumos. “Nós temos capacidade. A questão da pandemia ajudou a pensar nisso, mas a jornada é longa”, frisa a servidora da Anvisa.

Inovação e massa crítica

Os especialistas admitem que entre o estudo científico e o produto acabado há uma lacuna, que eles mencionaram como o “vale da morte”. “Nós, pesquisadores, químicos orgânicos e sintéticos, não fomos programados para empreender, para gerar um modelo de negócio”, disse Lima Filho.

De acordo com ele, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) distribuiu para a Química Orgânica (licenciatura, jovem cientista, pesquisador e afins) 951 bolsas e para a Síntese Orgânica 233 bolsas. “Totalizando 1.184 profissionais e estudantes pensando em transformações químicas orgânicas. É um embrião. Temos a massa crítica necessária”, analisou.

Teixeira comentou sobre como a sociedade percebe a Ciência e a inovação. “A sociedade só percebe a Ciência quando ela é capaz de transformar um produto. A tua tela de celular tem uma quantidade de tecnologia fantástica. Só quando você consegue tocar, percebe a Ciência na forma de produto. Isto é o conceito da inovação, ou seja, apenas quando você transforma o conhecimento em produto é quando a sociedade percebe a importância da pesquisa e como a Ciência transforma a vida”, frisou.

Na visão do executivo, o “vale da morte” é a distância que precisa ser percorrida entre o conceito e a realização do produto, com aporte de recursos financeiros e humanos. “Dentro da nossa Ciência [Química], é o que chamamos de hard science. É o mais custoso. Para desenvolver um medicamento, fala-se em milhões. Aí é que está o gap financeiro e brutal. Você desenvolveu o conceito, chegou em possibilidade e os passos seguintes são caros”, argumentou.

Teixeira disse que iniciativas do Ministério da Ciência e Tecnologia para criar redes de financiamento e mecanismos de apoio para cobrir o gap do “vale da morte” são válidas para a construção de massa crítica e incentivar aportes.

Desenvolvimento de capacidades

Para os convidados da live, conhecer atualmente o processo de instalação de uma fábrica de farmoquímicos e de inspeção dos produtos tornou- se muito mais complexo. “Para se chegar à documentação de regularização do IFA e acompanhar a vida do próprio medicamento, é preciso justificar. É preciso ter a capacidade de conhecer”, destacou Lima Filho.

“Isso é o que a inspeção cobra. Essa justificativa tem que existir para tudo. Tem que justificar o porquê que você tem aquelas especificações, o porquê você tem aqueles controles em processo. Inclusive, quando comecei na Anvisa, aplicamos o conceito de material de partida; as boas práticas e os controles a partir daquela mólecula”, argumentou a especialista. Segundo ela, a justificativa tem que ser técnica e não comercial. “Tudo isso evoluiu muito com a legislação”, acrescentou.

A justificativa também se eleva em relação ao nível de conhecimento do profissional da Química. “Tanto as farmoquímicas como as farmacêuticas estão cada vez mais precisando de químicos bem graduados”, relatou a servidora.

Conforme Teixeira, os requisitos de inspeção, conhecimento, processos de fabricação, qualidade e fabricação de insumos serão mais exigentes ao longo dos anos. “Infelizmente, a nossa necessidade de produção do IFA se mostrou presente, e não futuro”, avaliou.

“Nós temos 49 farmoquímicas ativas no Brasil. Vinte [empresas] são de insumos sintéticos e, dentre elas, existem as grandes e algumas muito pequenas, mas todas seguem a legislação da mesma forma. Quando você pensa em químicos, eles são necessários nas farmoquímicas e nas farmacêuticas”, ressaltou Rosimeire.

Confira aqui a live completa do CRQ IV sobre o IFA.