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“Há uma visão nova da Química, ligada ao bem-estar pessoal, à higiene e à saúde”

O presidente do Conselho Regional de Química da 13ª Região (CRQ XIII), Nivaldo Cabral Kuhnen, é um especialista da Química de seu Estado, Santa Catarina. Capaz de descrever com intimidade a economia catarinense (e a indústria química correspondente) em cada região, Kuhnen utiliza de sua experiência na indústria e na academia para trabalhar em favor da Química e de seus profissionais no Estado – tudo isso sem perder de vista a conversa afável e o caráter didático do grande professor que é. A síntese da entrevista:

1) Como o senhor caracterizaria a Química em Santa Catarina? Quais setores são os mais representativos?

Nivaldo Kuhnen – O nosso Estado tem uma peculiaridade: temos polos de indústrias… Muitos Estados têm, mas geralmente estão concentrados em determinada região. Aqui, estão distribuídos no território. Temos no centro-oeste, região de Chapecó e Concórdia entre outras cidades, a região em que pesa a agroindústria, temos grandes empresas de alimentos, suinocultura e avicultura que fazem de Santa Catarina um dos grandes senão o maior produtor brasileiro do setor e de exportação. No Planalto Serrano, região de São Joaquim, Lages, onde neva (risos), há indústrias de papel e celulose, com vastíssimas áreas de reflorestamento. No norte e nordeste, temos a região de Joinville, que tem vocação metal-mecânica, produção de compressores, motores, onde engenheiros químicos e químicos industriais também se encaixam. No norte, há ainda uma significativa indústria moveleira. No sul do Estado, região de Criciúma. Há o carvão, a produção de energia por termelétrica, e a indústria cerâmica. A cerâmica caiu um pouco com a competição de outras regiões do país, como Nordeste e São Paulo, o que obrigou a uma certa diversificação. A indústria de plásticos, de embalagens, é muito forte naquela região. Na região do Vale do Itajaí, há uma grande tradição de indústria têxtil, uma das mais fortes do país, incluindo Blumenau, Pomerode e outras cidades. Tem ainda indústria de cristais. Por fim, a região da Grande Florianópolis, que tem um setor tecnológico, de incubadoras, com tecnologia da informação… Compõem um terreno fértil para o empreendedorismo, nanotecnologia e nanoprodutos. Isso, numa visão rápida do Estado. Santa Catarina é o 6º maior parque industrial do Brasil, mas somos o 20º em território e o 11º em número de habitantes, é uma demonstração de pujança.

2) E a atuação do CRQ XIII? Qual tem sido o maior desafio?

Nivaldo Kuhnen – Quando retornei a Santa Catarina, após anos de trabalho na Petrobras,  entrei no CRQ XIII como conselheiro, depois presidi a Comissão de Ética, fui vice-presidente e depois eleito como presidente e em 2020 reeleito para o segundo mandato. O Conselho, pra minha felicidade, o então presidente José Maximiliano Muller o deixou muito bem organizado. Não quer dizer que não tenhamos desafios, temos sim. Precisamos melhorar a fiscalização, aumentar o número de delegacias regionais. Gostariamos de ter um fiscal em cada polo desses que citei na resposta anterior. Outro desafio que me consumiu tempo, isso porque sou da indústria e também sou da universidade, foi o contato, a interação com a academia. Estar presente junto às escolas formadoras dos nossos profissionais. Me formei em Química, já há muito tempo, e nem sabia da existência dos conselhos de Química, eu era um garoto de 21 anos. Mas hoje eu quero levar às universidades a importância do Conselho, que os professores se conscientizem que devem dar uma formação ética a esses estudantes. Qual a importância disso? Eu garantindo que o estudante receba essa informação, evito que haja processos éticos e reduzo a necessidade de fiscalização, seria como uma fiscalização preventiva.

3) Como tem sido o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico em Santa Catarina?

Nivaldo Kuhnen – O setor químico é uma indústria de alta tecnologia, de muita ciência e informação de alta qualidade. Atua no início da cadeia de insumos. Ela não foi uma indústria muito afetada. Claro, se formos ver os dados da Abiquim, houve queda. Mas nem perto do que ocorreu por exemplo com a indústria da construção civil. Uma indústria voltada à ciência e ao conhecimento, se ela desemprega, ela tem total dificuldade de repor. Então, a indústria fez um esforço para manter esses profissionais. A Abiquim aponta que 14% das indústrias do setor reduziram pessoal, o que, convenhamos, é muito pouco. A indústria foi afetada mas vai se recompor. Acabamos de fazer aqui registros de 60 novas empresas, algumas na área de compras de equipamentos e insumos pra Covid-19, algumas se adaptaram…  A indústria vai se recompor rapidamente porque temos um nicho novo que apareceu de higiene pessoal, que saiu plenamente fortalecido, assim como a indústria de plásticos e embalagens. Também temos toda nossa força agroindustrial.

4) Como foi a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ?

Nivaldo Kuhnen – Comecei jovem, 16 ou 17 anos. Queria estudar Química. Em Santa Catarina não existia nenhum curso de Química, tive que sair, ir pro Rio de Janeiro. Poderia ter ido pra São Paulo, ou o Paraná. Mas decidi pelo Rio por motivos óbvios (risos)… Me formei pela Universidade Rural do Rio de Janeiro. Fiz Engenharia Química, tenho 55 anos de atividade como profissional da Química, contando iniciação científica, monitoria, aulas particulares. Do Rio vim procurar emprego em Florianópolis, minha terrinha. Fiquei como professor da UFSC por 14 anos. Nesses 14 anos participamos da criação do curso de licenciatura e bacharelado em Química, do curso de mestrado em Química – que hoje é nota 7 da Capes, um dos melhores do país. Até que eu achei que deveria ir pra indústria, mais pela experiência. Fiz concurso para Petrobras, foi muito bom. Trabalhei no centro de pesquisa, na Ilha do Fundão (Rio de Janeiro-RJ) e a Petrobras tinha um plano de construir uma fábrica carioca de catalisadores. Essa, aliás, foi a razão de haver uma vaga pra mim lá. É uma curiosidade: fui pra Petrobras por conta da Guerra das Malvinas (risos). Os argentinos precisavam fazer gasolina pros aviões e acabou o catalisador. Óbvio que havia um bloqueio global de venda de catalisador para eles. Vieram ao Brasil, mas como comprávamos de fora não poderíamos vender para a Argentina. Aí os militares se perguntaram: “ué… Então não adianta ter petróleo que a gente não consegue fazer a gasolina? Precisa desse tal de catalisador? Então vamos fazer uma fábrica”. Aí eu entrei na Petrobrás, desde a compra do terreno. Fiquei dois anos nessa fábrica. Aí, achei que tava na hora de voltar. Pedi demissão da Petrobras e fiz concurso para a Universidade outra vez, dessa vez no Departamento de Engenharia Química, para participar na organização do mestrado e doutorado na área. Hoje posso dizer que temos também o conceito 7 da Capes, um orgulho.

5) Como será atuar na Química no pós-pandemia? Há motivos para otimismo?

Nivaldo Kuhnen – Temos que esperar… Vamos esperar com paciência. Já falei aqui, a nossa indústria química vai se recompor mais fortemente, mais rapidamente, do que a sociedade como um todo. Eu sou pessimista, eu vejo a sociedade recompondo em não menos de um ou dois anos, até que cheguemos numa certa normalidade, ou uma nova normalidade, como eles gostam de dizer.  A indústria química vai se recompor porque ela é essencial à vida. Química é vida e não tem jeito. Óbvio, pós-pandemia, os estudantes têm de se preparar. Aí vem um lado positivo: há uma visão nova da Química, uma Química ligada ao bem-estar pessoal, à higiene, à saúde, toda essa Química era praticamente relegada, mas hoje em dia não mais. Fomos valorizados como nunca. A Química é produtora de insumos primários, o que significa que ela não aparece. A Química, falando especificamente, ela não faz remédios – mas ela produz os insumos para que seja possível fazer os remédios. Veja como são as coisas: a farmácia e o farmacêutico aparecem pra sociedade, mas e o químico? Aí existe o otimismo… Há novas áreas na parte da biotecnologia, da nanotecnologia e, juntando-se isso ao empreendedorismo, eu digo que serão as áreas com maiores possibilidades. Digo sempre aos estudantes que observem essas áreas.

6) Qual mensagem o senhor deixaria para os estudantes e profissionais de Química de Santa Catarina? A Química vale a pena?

Nivaldo Kuhnen – Como disse no início da nossa conversa, a Química no Estado de Santa Catarina é espalhada no Estado todo. É possível trabalhar em qualquer área… A Química permeia todos os setores da vida, você pode trabalhar numa agência de pesquisa como a Embrapa, na Petrobras, na Anvisa… Você tem possibilidades na área governamental muito grandes, empregos numa vastidão muito grande. Na época em que se falou do pré-sal, em que o Brasil cresceu 3%, 3,5% ao ano, faltou profissionais da Química, tivemos de começar a importar mão de obra. É uma área que sim vai crescer, junto ao PIB. Mas tem que gostar da Química, né? Isso vale pra qualquer coisa que se faz na vida.