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Estudo usa nanopartículas de óleo de cozinha para controlar o colesterol

Compostos, chamados fitoesteróis, podem ser absorvidos pelo organismo e ajudam a combater doenças cardiovasculares 

No Brasil, de acordo as últimas pesquisas da Sociedade Brasileira de Cardiologia, quatro em cada dez adultos sofrem com o nível de colesterol elevado, o equivalente a cerca de 18,4 milhões de pessoas que correm o risco de ter algum problema agudo. Esses números, porém, podem ser maiores e alcançar os 60 milhões, já que há uma subnotificação de casos: 67% da população não conhece seus níveis de colesterol e a maioria das pessoas só faz exames a partir dos 45 anos.

Altos níveis de colesterol podem ter fatores genéticos ou alimentares. Trata-se de uma substância necessária ao organismo, já que é um tipo de gordura que faz parte da estrutura das células do cérebro, nervos, músculos, pele, fígado, intestinos e coração. É importante para a formação de hormônios de vitamina D e ácidos biliares, que ajudam na digestão das gorduras da alimentação. Mas o excesso de colesterol causa doenças vasculares porque ele se deposita, sem dar sintomas, na parede interna das artérias. É uma das principais causas de acidentes vasculares cerebrais e infartos.

O controle desse tipo de gordura ruim no organismo pode se tornar uma luta para muitas pessoas. E a aplicação da Química nos alimentos deve trazer em breve benefício para a saúde de quem precisa de remédios para controlar as altas taxas de colesterol e combater doenças cardiovasculares.

Uma pesquisa de doutorado desenvolveu nanopartículas formuladas a partir do óleo de cozinha que são absorvidos pelo organismo no lugar do colesterol, um dos principais causadores de doenças cardíacas.

O assunto foi o tema da pesquisa de doutorado da Química de alimentos Valeria da Silva Santos em projeto que fez parte da Faculdade de Engenharia Química e Engenharia de Alimentos (FEQ) da Unicamp.

Valéria explica que as nanopartículas são fitoesteróis, ou seja, esteróis vegetais que competem com o esterol de origem animal, o colesterol, no momento da absorção.

“São dois tipos de esteróis que têm a estrutura molecular muito parecida. Quando falamos em nanopartículas, estamos falando de uma coisa muito pequena, 80 mil vezes menor que um fio de cabelo. O que fazemos é basicamente uma emulsão de água e óleo e dentro de uma gota colocamos os fitoesteróis. Quando consumidos, no nosso organismo, ocorre uma competição. Os fitoesteróis são consumidos preferencialmente, o que reduz a absorção de colesterol”.

Segundo ela, os fitoesteróis podem ser encontrados em diversos alimentos, como tomate e maçã, mas em quantidade muito baixa. “Eles ajudam na redução do colesterol, mas há pessoas que precisam de suplementação alimentar ou de medicamentos que ajudem a reduzir o colesterol produzido pelo corpo. Esta é uma alternativa que vai ajudar no combate a doenças”.

A ideia é produzir os fitoesteróis em sachês ou como ingrediente para bebidas lácteas. “Com o desenvolvimento de alimentos ricos nestes compostos, a absorção pelo organismo será maior”. Valéria é cofundadora de uma startup que está viabilizando a aplicação dessa nova tecnologia. O iogurte de 200 mL tem a mesma quantidade de fitoesterol que 120 maçãs ou 340 tomates. A expectativa é que os fitoesteróis possam ser comercializados o quanto antes.

A inovação a serviço da saúde

Valéria começou os estudos com nanopartículas em 2014 quando ingressou no doutorado em Engenharia Química. Mas, desde o mestrado na Engenharia de Alimentos, já atuava na área de Tecnologia de Óleos e Gorduras. Desde então, vem trabalhando na mesma área (no total, são oito anos).

A busca pelo “novo” sempre atraiu a pesquisadora. “O que me levou a esta pesquisa foram as tendências de inovação, pois sempre fui em busca de desafios. Como a nanotecnologia é ainda pouco explorada em alimentos, pensei que seria uma boa parceria juntar alimentos, óleos e gorduras e a nanotecnologia”. Ela conta que, associado a isso, a nanotecnologia pareceu muito promissora, pois permitiria a inclusão dos fitoesteróis em alimentos, que poderia ser uma forma de viabilizar a produção de alimentos que auxiliassem na redução de colesterol.

Valéria e sua equipe foram finalistas do desafio de inovação tecnológica da Inova Unicamp em 2018 – ficaram entre os seis primeiros colocados. Recentemente, foi contemplada com o “Prêmio Inventores Unicamp 2020”, cerimônia realizada pela Agência de Inovação Inova Unicamp com o objetivo de homenagear alunos, ex-alunos, pesquisadores e docentes envolvidos em atividades de proteção e transferência de tecnologia e, com isso, promover o estímulo à inovação junto à comunidade acadêmica.