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Depois de ano difícil, indústria química prevê 2020 de retomada

A esperada retomada econômica ainda não chegou –  mas as expectativas seguem positivas. Em uma análise primária, 2019 não foi um bom ano para a indústria química brasileira. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o ano que se despediu há pouco deixou como saldo um faturamento no setor 4,2% menor que em 2018, considerado o valor em dólares (US$ 118,7 bilhões), com déficit ainda maior na balança comercial (US$ 32,1 bilhões), volume de produção em queda (3,7% em relação a 2018) e vendas internas 1,7% inferiores ao ano anterior.

O presidente do Conselho Diretor da Abiquim, Marcos de Marchi, acrescenta que a competitividade dos industriais brasileiros está limitada pelas condições adversas do país, comumente referidas como “Custo Brasil”.

“É um sobrecusto da ordem de R$ 1,5 trilhão ao ano”, explica.

Segundo a Abiquim, a capacidade ociosa da nossa indústria química chegou aos 30% em 2019. Os dados constam do documento intitulado “O Desempenho da Indústria Química Brasileira”, apresentado pela Associação no final de 2019, e não incluem números relativos è empregabilidade da indústria química. Não é difícil, porém, deduzir que o mercado do emprego no setor também não teve motivos para comemorar 2019 – pelo menos na indústria de base.

Recuperação já é sensível em setores da cadeia produtiva da Química

O conselheiro federal de Química Newton Mario Battastini, que também preside o Sindicato das Indústrias Químicas no Estado do Rio Grande do Sul (Sindiquim), observa que a indústria química de 3ª e 4ª gerações – aquela em que a produção é mais voltada para os bens de consumo domésticos, das famílias –  já deu sinais de recuperação claros em 2019. Essa sinalização, acredita Battastini, prosseguirá com mais força em 2020.

“A indústria de cosméticos já teve um 2019 melhor e deverá seguir a rota do crescimento em 2020. O mesmo vale para as indústrias químicas ligadas ao agronegócio”, aponta o conselheiro federal.

Battastini considera que a indústria de base, que tem grande peso nos números da Abiquim, será a última a sentir os efeitos positivos da recuperação. Mas que as atividades da Química voltadas a atender as demandas de consumo da população (responsáveis pela maior quantidade de empregos na área) sustentam uma projeção mais otimista, de geração de vagas.

“Se 2019 não foi o ideal, já foi bastante positivo em comparação com 2018. Acreditamos que 2020 será ainda melhor”, afirma.

Abertura de vagas exigirá profissionais qualificados

Para 2020, além de empenho para a resolução de problemas como custo dos insumos e a complexidade da estrutura tributária, a tarefa principal talvez seja garantir o crescimento do país como um todo.

“Se as pessoas passam a consumir mais, a ter confiança no consumo… Cada peça de roupa, cada prato de comida, cada creme que passa no rosto, shampoos, detergentes pra fazer a limpeza, isso representa crescimento pra indústria química”, conclui o conselheiro federal.

Quanto ao emprego, é importante destacar que o Brasil historicamente apresenta déficit de talentos em diversas áreas do conhecimento –  o que envolve os profissionais de química. Economia aquecida pode aprofundar essa carência.

“Faltam profissionais capacitados para trabalhar na indústria, temos dificuldades. Se a gente considerar a quantidade de químicos que se formam, já está aquém da necessidade. Se vier um aquecimento da economia, ficar um pouco melhor, vão faltar esses profissionais no mercado”, afirma Battastini.

Investimentos da indústria ainda em compasso de espera

A médio prazo, porém, Battastini chama atenção para a timidez nos investimentos na indústria química:

“(Em 2019) o investimento teve uma queda de quase 70%. O faturamento de algumas áreas pontuais até cresceu. Se formos considerar a química de base, que é onde a Abiquim atua mais fortemente, o déficit registrado foi grande (na balança comercial)”.

Considerando que uma planta industrial, especialmente em Química, não é o tipo de empreendimento que se pode fazer da noite para o dia, Battastini avalia que investimentos menores devem impactar no PIB do setor nos anos que virão.

A Abiquim corrobora a preocupação: em 2019 o investimento caiu de US$ 3 bilhões para US$ 700 milhões, o nível mais baixo desde que o levantamento da Abiquim apresentou seus primeiros dados, em 1995.

Gás mais barato e reforma tributária

Ainda que a recuperação da economia permita projetar crescimento no curto prazo, apenas os investimentos podem garantir que essa retomada seja duradoura. Na opinião do conselheiro federal, uma reversão de cenário para retomada de investimentos depende da resolução de dois problemas principais, um conjuntural e outro específico da indústria.

“A questão do gás é muito importante. O gás é muito caro no Brasil e isso torna complicado convencer o investidor externo a colocar seus recursos aqui. O outro ponto é uma reforma tributária. Não que tenhamos a expectativa de desoneração, pagar menos imposto, mas pelo menos que haja uma transparência do ponto de vista jurídico, algo mais correto”, afirmou Battastini.

O preço do gás é, de fato, um dos grandes gargalos da indústria nacional. A Abiquim afirma que o gás é um dos principais insumos do setor químico e que, comparativamente, o seu custo no Brasil representa quatro vezes o valor praticado nos Estados Unidos.