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Consórcio internacional investe em pesquisa de medicamentos contra doenças negligenciadas e malária

 

Participação de profissionais da química na área da saúde está cada vez mais em evidência

A luta contra a pandemia da Covid-19 inspirou esforços para o combate da malária e das chamadas doenças tropicais negligenciadas (DTNs). Causadas por agentes infecciosos ou parasitas, essas enfermidades transmissíveis afetam mais de 1,7 bilhão de pessoas por ano em todo o mundo, especialmente em 150 países de renda média e baixa. O Brasil, que reúne grande parte das 20 DTNs, é líder na América Latina em casos de doença de Chagas, leishmaniose, hanseníase, dengue e esquistossomose.

Em busca de novos medicamentos para mudar esse cenário, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP) reuniram um time de cientistas em uma rede global de colaboração, cofinanciada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), DNDi (iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas) e MMV (Medicines for Malaria Venture). O consórcio internacional vai contar com investimentos de R$ 43,5 milhões em cinco anos.

Um dos objetivos do projeto é entregar um composto de alta qualidade, otimizado e pronto para o tratamento da doença de Chagas e leishmanioses. Já no combate à malária, a missão é identificar uma nova molécula que possa matar rapidamente o parasita, sem deixá-lo suscetível ao desenvolvimento de resistência ao medicamento. A meta é criar a cura radical em dose única e profilaxia e/ou um medicamento com quimioproteção, também em dose única, o que ajudaria a eliminar a malária em países como o Brasil.

“Essas doenças apresentam indicadores de saúde inaceitáveis e recebem poucos investimentos para pesquisas, produção de medicamentos e detecção, e controle efetivo. Como nós não temos uma rede de combate, de controle e prevenção, elas continuam sendo algumas das principais causas de morbidade e mortalidade no mundo e ainda podem tornar a Aids e a tuberculose ainda mais letais. Trata-se de um problema global de saúde pública, com pouca atenção das grandes indústrias farmacêuticas, que preferem focar no desenvolvimento de medicamentos produzidos e comercializados com geração de lucros”, ressalta Luiz Carlos Dias, professor do Instituto de Química da Unicamp, coordenador do projeto, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e membro da força-tarefa da Unicamp no combate à Covid-19.

Ele explica que a ideia do consórcio é exatamente reunir profissionais de alto nível e de diversas áreas, principalmente doutores qualificados, que estejam realmente abertos para a inovação e o trabalho integrado. “Nós temos de fato alguns locais de excelência, mas cada um fazendo um trabalho desconectado, sem integração, sem conversar entre si, apesar de produzir ciência básica de muita qualidade. No entanto, o que precisamos realmente é da união das várias competências para resolver problemas reais e trazer soluções concretas para salvar vidas e melhorar a condição de vida de nossa população”, afirma.

Para ele, a pandemia só evidenciou que o país precisa urgentemente de um projeto governamental estratégico que valorize e apoie a pesquisa básica de alta qualidade voltada para a inovação tecnológica, priorizando as startups inovadoras. Sem contar a necessidade de apoio financeiro contínuo para o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia que, desta forma, será capaz de transformar a Ciência de qualidade produzida no Brasil em ações concretas e permitir com que o país esteja realmente preparado para enfrentar desafios na área de saúde pública.

Desafios

Os baixos investimentos em pesquisa geram consequências que impactam o cenário atual. Há mais de 30 anos, investiga-se uma vacina para a malária que, somente em 2018, matou mais de 405 mil pessoas, sendo 67% crianças menores de cinco anos — em média, uma a cada dois minutos. Atualmente, há a vacina Mosquirix, que está sendo usada no Quênia, Gana e Malawi. Mas, ela apresenta eficácia de 30% após 4 doses. Isso por conta do complexo ciclo de vida dos parasitas e da resistência aos medicamentos e aos tratamentos, pois eles se adaptam facilmente.

“Talvez seja muito difícil desenvolver uma vacina contra a malária porque o agente causador, o plasmodium falciparum, é geneticamente muito complexo e adquire resistência a vacinas muito rapidamente. Essa capacidade de evolução dificulta o desenvolvimento de medicamentos e de uma vacina eficiente, segura, robusta, com uso em diferentes países e populações com diversas cepas de parasitas circulantes. Outro problema é que são poucos os estudos em vacinas para doenças parasitárias tropicais que afetam pessoas em países de renda baixa”, destaca Dias.

No Brasil, um dos desafios é a falta de acesso aos reagentes químicos e aos insumos necessários devido à dependência do mercado externo. Para o professor do Instituto de Química da Unicamp, o país precisa do desenvolvimento de novas moléculas e uma indústria de Química fina que forneça intermediários.

“Isso sem contar a burocracia enorme que enfrentamos. Além disso, nós não temos expertise em descoberta de fármacos no Brasil, não sabemos como fazer. Por isso, precisamos de parcerias com profissionais e empresas do exterior. Atualmente, a área de fármacos é refém do modelo atual das empresas nacionais, que têm interesse maior na produção de genéricos e não na inovação. Essas empresas estão em uma zona de conforto. E tudo isso levou à dependência de insumos. Todos os materiais de partida que precisamos vêm do exterior. É muito complicado avançar assim”, lamenta.

Químicos em alta

O ponto positivo da pandemia é que a área da Química nunca esteve em tanta evidência, conforme aponta o professor Luiz Carlos Dias. Graças às diversas atuações, desde a fabricação de produtos, adaptação de respiradores, realização de ensaios pré-clínicos, desenvolvimento de novos equipamentos e insumos para testes de diagnósticos, pesquisas de novos medicamentos até os esclarecimentos de assuntos importantes para a sociedade, os profissionais da área ganharam de fato notoriedade.

“O que falta agora é nós, químicos, sermos reconhecidos como profissionais de suma importância dentro da área de saúde. Esse é um bom momento para deixar claro que a Química é a ciência mais central que permeia várias áreas, como imunologia, farmácia, infectologia, biologia molecular, biologia, bioquímica, parasitologia, virologia, microbiologia, dentre outras. É só olharmos as áreas da Química que foram contempladas nas últimas premiações do Prêmio Nobel, nos últimos 20 anos, e toda a participação dos químicos durante o processo de desenvolvimento das vacinas contra o coronavírus”, completa.