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Ciência: o campo ideal para as mulheres

Em início de carreira, Maíra Fasciotti já é uma das pesquisadoras mais influentes da América do Sul

Maíra Fasciotti, de 33 anos, é uma das 10 cientistas mais influentes da Química analítica da América do Sul segundo a Power List 2020, da revista The Analytical Scientist. O Conselho Federal de Química (CFQ) encerra a série especial em homenagem à Semana da Mulher com a história da jovem.

Atualmente, ela trabalha na metrologia química do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Atua, especialmente, na análise orgânica, onde tem como missão melhorar a qualidade das medições, ou seja, trabalhar para que se tornem mais exatas e precisas, seja por meio da produção de materiais de referência certificados ou por meio de comparações interlaboratoriais. “Mas os campos de aplicação da Química nesta área são infinitos. Temos projetos na área de alimentos, meio ambiente, materiais, biocombustíveis…”

Maíra trabalha em diversas frentes. Entre elas, estão um projeto sobre a avaliação de adulteração de suplementos alimentares e outro sobre a investigação da composição de óleos amazônicos, utilizados como matéria-prima na indústria de cosméticos e alimentos. Além disso, está desenvolvendo um método para identificação de madeira para ser utilizado no combate à exploração ilegal. “Esses projetos têm impacto no dia a dia do consumidor e também nas relações comerciais do Brasil, tornando-as mais justas”, explica.

Quem vê a jovem cientista premiada que desempenha um trabalho tão importante nunca vai imaginar que Maíra nunca foi uma boa aluna em Química no colégio. Ela quase “perdeu” o primeiro ano do ensino médio por causa das notas baixas. A relação com a Química começou apenas seis meses antes do vestibular. “Resolvi mudar minha escolha de Direito para Química Industrial. Choquei a todos, inclusive a mim mesma. Porém, foi justamente o fato de ter que estudar muito o que fez eu me apaixonar pela Química; não imagino minha vida sem ela”.

Assim que entrou na faculdade, Maíra já se envolveu em diversas atividades extracurriculares, como monitorias, iniciações científicas e estágio. “Acho que foi muito importante para me ajudar a decidir qual linha de atuação eu gostaria de seguir na minha carreira profissional. Mas foi um convite para outra iniciação científica, na área da Química analítica, para trabalhar com cromatografia e espectrometria de massas, que me fez mudar totalmente o rumo da minha carreira. Sigo trabalhando nessa área até hoje”.

A grande ídola de Maíra é Francis Arnold, a ganhadora do Prêmio Nobel de Química de 2018. “Ela é uma grande inspiração para mulheres cientistas, porque, apesar de uma trajetória de vida com percalços no campo pessoal, ela seguiu fazendo Ciência com imensa dedicação”.

Outro ídolo é Otto Gottlieb, o maior nome da Química de produtos naturais do Brasil e do mundo, indicado ao prêmio Nobel por sua imensa contribuição para a área. “Até hoje, eu me pergunto como ele conseguia fazer uma Química com tanta qualidade e ter tanta contribuição em uma época em que não se tinha os recursos analíticos disponíveis hoje em dia. Sua genialidade é algo fora do comum”, reflete.

E o futuro de Maíra parece tão grandioso quanto o dos ídolos. A pesquisadora ainda está em início de carreira, já que defendeu o doutorado em 2018. E a expectativa é contribuir cada vez mais para a área de metrologia Química do Inmetro. “Para que isso tudo aconteça, espero que o Brasil se recupere economicamente, reerga-se e que o cientista passe a receber o valor que deve ter para o desenvolvimento desse país”.

Go, girl!

Os desafios ligados à falta de recursos e apoio também não ficaram de fora da história de Maíra. Além desses entraves que são comuns aos pesquisadores, ela teve de enfrentar outra dificuldade. “O fato de eu ser mulher, e principalmente jovem, sempre me trouxe uma dificuldade extra”, relata. “A figura do homem (e da mulher também) misógino e machista existe, é real e deve ser combatida. Já passei por episódios muito tristes, de descrédito da minha capacidade profissional simplesmente por ser mulher e jovem. Porém, sempre me posicionei duramente, sem abaixar a cabeça. Precisamos nos impor e jamais nos calar”.

A vontade de seguir adiante sempre foi maior. Ela acredita que está no lugar correto, mais do que nunca. “Eu acho a Ciência o campo ideal para as mulheres! A Ciência requer criatividade, sensibilidade, perseverança, personalidade multitarefa e articulação. Nesses aspectos, as mulheres se destacam muito. As dificuldades são as mesmas, independente se é na Ciência ou não”.

Quando perguntada sobre o que diria para as jovens meninas que têm o desejo de ingressar no mundo da Ciência, Maíra é certeira: “Eu diria: “Go, girl!!!”. “Apesar de parecer difícil, do cenário atual do país não parecer favorável, das oportunidades do mercado de trabalho estarem cada vez mais escassas, ninguém é feliz fazendo aquilo que não ama. Então, se for realmente seu sonho ser cientista, lute por isso! Não será fácil, ok? É uma carreira de muito esforço, muita abdicação – muitos finais de semana e noites estudando, sem amigos, sem vida social… Mas no final vai valer a pena! Lute pelos seus sonhos e aproveite toda e qualquer oportunidade, mesmo que você ache que não vai dar conta. Você consegue sim! E se não foi daquela vez, tente de novo. O importante é não desistir”.