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Cabines e túneis de desinfecção representam risco à saúde pública

Sistema CFQ/CRQs reforça alerta sobre os perigos dos dispositivos após aprovação de projeto de lei na Câmara Municipal de São Paulo

Desde que os primeiros túneis e cabines de desinfecção de pessoas foram instalados em municípios brasileiros, o Sistema CFQ/CRQs (Conselho Federal de Química e Conselhos Regionais) faz o alerta: não há comprovação científica de sua eficácia e seu uso pode causar danos à saúde.

Na noite da quarta-feira (12), o Projeto de Lei 365/2020, que prevê como obrigatória “a instalação de equipamentos de sanitização em locais públicos e/ou privados como Parques, Shopping Centers, Hipermercados, Estações de Transporte Coletivo e locais com grande circulação de pessoas”, foi aprovado na Câmara Municipal de São Paulo. O Sistema CFQ/CRQs, por meio do Conselho Regional de Química IV (SP), emitiu, em julho, parecer contrário ao projeto.

O Sistema CFQ/CRQs mantém o posicionamento contrário à aplicação de qualquer saneante em pessoas por meio de dispositivos de nebulização ou de aspersão, instalados em vias públicas ou entradas de empresas. Confira aqui a íntegra da nota do Sistema em conjunto com a Associação Brasileira de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (Abipla).

A prática pode causar graves danos à saúde, como irritação da pele e das vias aéreas. No caso específico do produto indicado no PL aprovado ontem, o digluconato de clorexidina a 0,2%, é uma substância altamente irritante aos olhos, podendo levar a cegueira.

Apesar de a clorexidina ser aprovada para uso cosmético não significa que possa ser aplicado em outras partes do corpo ou que possa entrar em contato com mucosas e vias aéreas sem causar sérios danos à saúde da população. Além disso, a forma de aplicação (a aspersão) adiciona variáveis novas à análise de risco do produto, uma vez que o tamanho das partículas do produto terá impacto significativo sobre o potencial toxicológico.

O posicionamento do Sistema CFQ/CRQs tem base científica e respaldo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Não existem estudos que garantam a eficácia da borrifação dos produtos químicos sobre pessoas como medida de combate à Covid-19 – seja no sentido de eliminar o vírus, seja no de oferecer garantias de que a prática não prejudica a saúde da população.

O mais recomendado é que a população não se exponha a tais dispositivos de “desinfecção”. A falsa sensação de segurança que tais dispositivos eventualmente proporcionam pode levar as pessoas a relaxarem nos procedimentos básicos e já consagrados para reduzir o risco de contaminação pela Covid-19: usar máscara, higienizar frequentemente as mãos com água e sabão (ou álcool 70%) e evitar aglomerações.

Projeto similar tramita no Senado Federal
O Projeto de Lei 4.117/2020 foi apresentado pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS) também na quarta-feira (12). O texto sugere a obrigatoriedade de instalação de túneis, cabines ou pórticos de descontaminação nas entradas de espaços com potencial de grande aglomeração de pessoas. O Sistema CFQ/CRQs acompanha a tramitação do PL.