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Água engarrafada tem data de validade, mas armazenagem correta e qualidade da embalagem são preponderantes para garantir segurança

Talvez você nunca tenha reparado no prazo de validade da garrafa de água que está consumindo, seja no restaurante, no mercado, ou aquela que compra no sinal de trânsito, no parque ou na praia. Afinal, é estranho pensar que água tenha prazo de validade, não é mesmo? “A validade da água está muito atrelada ao fato de que as embalagens têm, sim, a capacidade de preservar, mas não são necessariamente uma barreira 100% eficaz”, explica Fabrício Miguel Farinassi, Engenheiro de Alimentos e Técnico em Bioquímica responsável pela gestão de qualidade e meio ambiente da Águas Prata, empresa de bebidas que atua no mercado desde 1876.

Mais importante que observar a data de validade que consta no rótulo, o ideal é saber como e onde essa garrafa estava armazenada. “Mesmo dentro da validade, se a garrafa não estiver corretamente armazenada, a água pode estar comprometida. Mas, se ela estiver bem armazenada e passar do prazo de validade, certamente não haverá problema com essa água para a saúde, apenas alterações sensoriais”, argumenta o especialista.

“A água mineral natural não tem validade. Na natureza tem águas que são seculares e algumas até milenares. Não temos como precisar o tempo que ela está armazenada nos poços. Ela fica lá guardada e protegida até ser encontrada e explorada”, afirma Fabrício.

Ele explica que os estudos que determinam o prazo de validade são baseados na garantia de que a água engarrafada não sofrerá mudanças sensoriais e características próprias durante determinado período dentro daquela embalagem, mas não tem relação com toxicidade. “Na água sem gás a validade de prateleira estará relacionada às mudanças organolépticas e sensoriais, como odor e sabor”, afirma o especialista.

Letícia Zocarato, Engenheira Química com 20 anos de experiência em água mineral, hoje CEO (Chief Executive Officer) e responsável Técnica da empresa Ozion Engenharia e também Química responsável na empresa Água Mineral Santuário de Aparecida, complementa que “no processo de validação temos que garantir que dentro daquele prazo a água desta garrafa estará segura, sem riscos de contaminação”.  Ela reforça que depende muito do tipo da embalagem e por isso cada indústria define a sua data de validade. Segundo ela, “a gramatura da pré-forma define a qualidade da embalagem e isso influencia no prazo de validade da água, ou seja, no tempo que ela ficará segura dentro dessa garrafa”.

Fabrício esclarece que, na água com gás, o que vai determinar o prazo de validade será o tempo dessa água perder o gás. “Em garrafas de plástico o gás dura menos, cerca de 4 a 6 meses, pois esse material não é impermeável ao gás carbônico. Já no vidro, a água com gás vai ter até 1 ano de validade”.

Ambos os especialistas confirmam que “se alguém beber uma água engarrafada com prazo de validade vencido, não quer dizer que fará mal à saúde, mas ela poderá estar com um gosto diferente, com odor ou sem gás – no caso das gasosas”.

No processo de exploração comercial, quando retiram a água do poço para engarrafá-la, há uma série de protocolos de segurança previstos em lei para impedir uma possível contaminação. “Se a indústria seguir a legislação em toda a cadeia de produção certamente não haverá contaminação nesse momento de extração e envase”, argumenta Letícia.

As embalagens para armazenar a água podem ser de vidro, de plástico, alumínio (lata) ou também em cartonado (caixinha). Letícia explica que depois do envase, as embalagens seguem para os distribuidores. “Temos o desafio, enquanto indústria, de educar o distribuidor a armazenar essas embalagens de forma correta”, afirma. “Existe legislação, mas a fiscalização é pouca. Por exemplo, vender Galão de 20L em posto de gasolina não é permitido, assim como deixar garrafas PET pegando sol em lugares que não tem estoque adequado também está fora da lei, mas nem todos se atentam a isso”, reforça a especialista.

A qualidade da embalagem e a armazenagem adequada são dois pontos cruciais para a garantia da qualidade da água engarrafada.  “O calor ou o raio solar direto aquece a água e a embalagem, é aí que vem o problema”, comenta Fabrício.

Ele lembra que todo processo químico é acelerado com o aumento de temperatura, e que todas as embalagens, principalmente as de plástico, não devem ser expostas a uma temperatura elevada. “O calor ajuda a quebrar as ligações químicas nos plásticos e essas substâncias químicas podem migrar para as bebidas contidas nas garrafas. Alguns plásticos, quando aquecidos, ficam fisicamente alterados, amolecem, mudam de cor, podem até derreter. Às vezes fica perceptível até no sabor, mas nem todo mundo sente ou presta atenção no aspecto da embalagem”, destaca.

Dentre as principais substâncias liberadas pelo plástico na água ao ser aquecido estão os fenóis. O mais conhecido é o bisfenol, que inclusive é proibido na composição de mamadeiras e outros produtos para crianças. “O plástico tem vários compostos de fenóis que podem fazer mal ao serem ingeridos pelo corpo humano ao longo do tempo. Não é imediato, pois ele vai acumulando no organismo”, argumenta Fabrício.

Segundo Fabrício e Letícia, a embalagem de vidro acaba sendo mais segura, pois tem menos contato com esses compostos, visto que somente a tampa e/ou o lacre são de plástico. “Mas dependendo de como ela for armazenada, se aquecer demais e a garrafa de vidro estiver deitada, por exemplo, essa água terá contato com o plástico da tampa. Ou, se a água evaporar em função do calor, ela bate na tampa de plástico e volta contaminada”, explica Fabrício. O mesmo acontece com a lata, pois entre o alumínio e a água tem plástico naquela embalagem. Portanto, a atenção com o calor excessivo deve ser para todos os tipos de embalagem.

Fabrício revela que um estudo realizado pela empresa onde trabalha, em parceria com a Unicamp, comparou caminhões de transporte de água com carroceria aberta – que cobrem os produtos com lonas plásticas ou lonas de algodão – com caminhões fechados (estilo baú). “A melhor condição definida foi a do caminhão fechado, pois foi a que melhor protegeu da incidência de calor e luz solar. A lona de algodão, segundo o estudo, até cria um isolamento térmico, mas, constatou-se que a água engarrafada carregada em caminhão de lona plástica pode chegar a uma temperatura de 80oC graus”, conta Fabrício. “O calor, para a água, é o maior inimigo”, conclui.

Os dois especialistas reforçam que se qualquer das embalagens estiver armazenada de acordo como indica o rótulo – em local fresco, arejado e protegido – a água dentro dessa embalagem estará boa e segura por bastante tempo.

Agora, sabe aquela garrafinha que ficou no carro e ainda tem um resto de água? “Melhor não beber!”, ambos afirmam. “Essa é pior porque como ela já foi aberta, foi exposta ao ambiente. No carro, além do calor esquentar o plástico e ele liberar aquelas substâncias tóxicas, microrganismos podem entrar e se proliferar”, explica Fabrício. Letícia complementa que, “ao bebermos na garrafa, nossa saliva entra em contato com essa água e então aumenta ainda mais o risco de uma contaminação cruzada”.

O cuidado deve se estender quando for reutilizar as garrafas de plástico. “Para você reutilizar uma garrafinha de plástico você precisa higienizá-la bem. Mas se a garrafa pegou muito sol, muito calor, melhor não a reutilizar como recipiente de água para beber novamente”, conclui.

Segundo eles, o melhor mesmo é você ter sua própria garrafa térmica que preserve a temperatura da água, além de trocar a água com certa frequência.

Letícia alerta aos consumidores: “Conheça sempre a cadeia produtiva do produto que você está consumindo. Não se preocupe apenas em matar sua sede. Veja qual é a empresa, quais são os princípios e valores dessa empresa. Seja um consumidor consciente!”. No canal do YouTube da sua empresa, Letícia posta vídeos sobre a importância da água, os cuidados necessários com seu consumo e curiosidades. “Meu propósito é levar o máximo de conhecimento para toda a cadeia, desde a empresa até o consumidor”, afirma. O canal Ozion Engenharia Sustentável para o Mundo está disponível em https://youtube.com/channel/UCHeQ3EnOmPNRf4mZ8joyG9g .