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“Acreditamos fortemente no Sistema e no apoio federal. Isso nos torna confiantes de que conseguiremos avançar”

Apaixonada pela História da Química no Estado do Pará, a presidente do Conselho Regional de Química da 6ª Região (CRQ-VI), Cristiane Maria Leal Costa, faz ela própria História ao quebrar um paradigma: é a primeira mulher a ocupar esse posto. O desafio fica ainda mais exigente por conta da pandemia de Covid-19 (que castiga fortemente os Estados do Pará e Amapá, a área de atuação do CRQ-VI, que possui 2.702 profissionais e 418 empresas registradas), mas nada que tire o bom humor dessa docente devotada ao ensino e à pesquisa. Leia a síntese da entrevista:

1) Como a senhora caracterizaria a Química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos e que profissionais têm mais campo de atuação?

Eu teria de começar contando uma história… de como a Química surgiu no Pará. O início se deu em 1920 com a criação da Escola de Química Industrial de Belém. Essa Química ainda era escrita com CH (risos). Ou seja: agora em 2020, estamos completando 100 anos da Química no Pará, é um marco pra nossa História. Eu expresso que o CRQ-VI se congratula com os químicos que contribuem com esses 100 anos. Relato que a Química chegou ao Pará em 1904 estabelecida através de uma disciplina, a Química Farmacêutica. Nessa época a Química era muito direcionada para a área de saúde. Em 1920, se deu a criação da escola tendo como principais destaques os estudos sobre óleos vegetais, látex, farinha, pigmentos, fibras vegetais, medicamentos oriundos de produtos naturais, entre outros. A gente pode destacar que o primeiro diretor foi um francês, Paul Le Cointe, um grande estudioso da natureza Amazônica, em diversas áreas. Entre 1930 a 1955, a Escola de Chimica ficou fechada, devido à crise econômica, causada pela revolução, foram canceladas as verbas federais… E ela só foi reaberta em 1956 após uma luta intensa de ex-alunos, liderados pela professora Clara Martins Pandolfo, que passou a ser um ícone da Química no Norte do país. Hoje nós, o CRQ-VI, temos um prêmio entregue aos profissionais da Química que leva seu nome. Em 1963, a Escola passa a ser encampada pela UFPA e teve uma oportunidade grande de desenvolvimento. Atualmente, eu destacaria que a Química nos Estados do Pará e do Amapá, na área do CRQ-VI, ela contempla principalmente as necessidades básicas que seriam a indústria de produtos alimentícios, incluídas bebidas, a indústria metalúrgica, a extração de minérios e as empresas de imunização e controle de pragas. Tem a extração vegetal e a indústria de cosméticos, que é a consequência disso, da biodiversidade. Não poderia deixar de destacar ainda a pesquisa, a inovação. Tem sido desenvolvida nas universidades, institutos federais, centros de pesquisa. O Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá é o primeiro em operação na Amazônia. Tem como objetivo estimular pesquisa aplicada, empreendedorismo e a transferência de tecnologia para a sociedade. Esse centro de pesquisa é mantido pelo governo do Estado, com financiamento do BNDES, apoio do SEBRAE, Federação das Indústrias do Pará e outros.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco de atuação e o maior desafio?

Como não poderia deixar de ser, a fiscalização. Em 2020, tem sido desafiador superar essa pandemia. Não somente no que diz respeito à saúde da nossa equipe, mas também o que diz respeito às empresas que não podem deixar de produzir para auxiliar o país no abastecimento. Uma das preocupações é manter a estabilidade financeira do conselho. Somos um conselho pequeno em termos de números, colaboradores, empresas, profissionais registrados. Mas nos consideramos grandes quando o assunto é área territorial e os desafios que acreditamos sermos capazes de enfrentar e superar. Acreditamos fortemente no Sistema CFQ/CRQs e no apoio do federal. Isso nos torna confiantes de que conseguiremos avançar e implementar nosso planejamento estratégico. Não posso deixar de destacar outro grande desafio: continuar com nossas parcerias com as instituições de ensino superior. Isso faz com que possamos nos aproximar dos discentes e docentes, trazendo eles para próximo do CRQ. Fazemos isso realizando eventos científicos. É uma forma de convencê-los a manter o registro em dia e a porta aberta pros discentes. Assim que se formam, eles podem se aproximar do CRQ e garantir seu registro.

3) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ? Como se deu sua trajetória?

Despertei pra Química no Segundo Grau, o atual ensino médio. Assim já estou até denunciando a idade (risos). Mas junto com a Química eu também tinha interesse na Física e na Matemática. Isso me deixava na dúvida, sem ter experiência… Ai fui conversar com professores dessas disciplinas e eles me falaram sobre a Engenharia Química. Quando foram descrevendo o que fazia o profissional da Engenharia Química, isso foi suficiente pra despertar o interesse para esse curso. Assim, fui pesquisar um pouco mais e me decidi. Acabei prestando vestibular ainda como treineira… e passei. Isso me deixou ainda mais animada. No ano seguinte era o ano valendo, o nervoso bateu, mas deu tudo certo. Tinha certeza de que era isso que eu queria. Passei novamente, me formei pela UFPA em 1995, depois disso fiz mestrado na UFPA e doutorado na Unicamp. Segui uma carreira acadêmica como docente e estou há 22 anos na docência da UFPA. Durante todo esse tempo me dediquei ao ensino, à pesquisa e à administração. Fui coordenadora de curso de pós-graduação, por dois mandatos, e foi em 2014 que eu entrei no CRQ-VI, como conselheira suplente. Aí depois fui titular e logo em seguida, de 2017 a 2019 eu fui vice-presidente. Desde 2020, estou presidente (risos).

4) Como tem sido essa experiência diante do CRQ?

Me sinto congratulada por ser a primeira mulher presidente em 50 anos do CRQ-VI. Isso me deixa orgulhosa, de representar isso tudo. Agora estou nesse desafio e, logo no primeiro ano, enfrentando a pandemia, mas acreditando que vamos superar os obstáculos junto com a diretoria, junto com os colaboradores, os conselheiros e o Sistema.

5) Qual herança, qual ensinamento restará do enfrentamento dessa pandemia? Há motivos para otimismo?

Diria que o CRQ-VI acreditou que poderia ajudar a unir forças na campanha Química Solidária, junto com todos da diretoria, conselheiros, colaboradores, que estavam totalmente sensibilizados com o Covid-19, que atinge ainda fortemente o país e em especial aqui a Região Norte. Fizemos toda a campanha de mobilização, fizemos parceria com o Instituto Federal do Pará… Isso resultou na produção de mais de mil litros de álcool glicerinado para doação. As indústrias químicas de modo geral continuam atuando, após adotarem as medidas de segurança. Diria que um exemplo disso é nossa indústria de alumínio e a imunização e controle de pragas, que foram muito demandadas pra higienização e sanitização dos ambientes. Mesmo tendo algumas atividades econômicas que atuaram fortemente durante a pandemia, muitas estão sendo impactadas. Acreditamos que vão se reestruturar tão logo tudo se organize. Fizemos, também, várias tratativas com órgãos públicos, orientando e encaminhando ofícios em relação às orientações sobre as cabines de desinfecção de pessoas… Destacamos a pauta conjunta do Sistema CFQ/CRQs com a ABIPLA (a Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes) e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Essas foram ações que o CRQ-VI desempenhou com intuito de zelar para que essa atividade química se desenvolva e demonstrar a importância da Química para a sociedade. Então, acredito sim, que podemos ser otimistas e que as ações do Sistema CFQ/CRQs ajudarão o setor da química a superar os problemas causados pela pandemia.

6) Qual mensagem a senhora deixaria para os profissionais de Química do seu Estado e do país? E para os estudantes?

Vale muito a pena estudar Química! Os estudantes precisam ter confiança e também determinação. Esse momento difícil vai passar, vai ser superado. Pro crescimento profissional, eu sempre reforço que é preciso fazer uso da interdisciplinaridade, da multidisciplinaridade…isso permite não somente ampliar a área de trabalho deles, como também seus conhecimentos. Tem alguns dias, li um artigo que falava do ensino da Química e que tem uma frase que deixei anotada: “A exigência em dominar conhecimentos químicos não é um fato recente e imposto por meras intervenções do conhecimento acadêmico, mas um antigo pré-requisito pra formação de profissionais capacitados”. Por isso, podemos dizer que a Química está em tudo, todos os dias. Não menos importante, que o CRQ-VI se congratula com os químicos que contribuíram e contribuem para esses 100 anos da Química no Pará. Só o fato de já termos 100 anos da Química isso nos deixa com esperança de acreditar que teremos mais 100, mais 100… e seremos sempre referência pro país.