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A vez das mulheres na pesquisa científica

Cientistas que trabalham para o avanço das Ciências Químicas no Brasil falam sobre suas trajetórias e conquistas

Fotos: Divulgação
– Unicamp/UFSM/Petrobras

O mês de outubro marcou a carreira de três mulheres que trabalham pelo avanço das Ciências Químicas no Brasil. As professoras universitárias Ana Flávia Nogueira e Paola de Azevedo Mello, e a Engenheira Química Sonia Maria Cabral de Menezes foram as vencedoras do Prêmio Mulheres Brasileiras em Química e Ciências Relacionadas 2020.

O prêmio é oferecido pela Sociedade Americana de Química (ACS, sigla em inglês) em parceria com a Sociedade Brasileira de Química (SBQ). O objetivo é promover a igualdade de gênero em ciência, tecnologia, engenharia e matemática no Brasil e avançar na compreensão do impacto da diversidade na pesquisa científica e no campo da Química.

Ao Conselho Federal de Química, as três premiadas falaram sobre o caminho percorrido até aqui e as expectativas que cultivam. Premiada pela “Liderança Acadêmica”, Ana Flávia Nogueira é docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Como professora, ela tenta passar aos alunos valores que vão além do conteúdo protocolar. “Para chegar lá, eu diria que, primeiramente, você tem que ser apaixonado pelo que faz, ter perseverança, porque, muitas vezes, você pensa em desistir – principalmente nós mulheres, que acumulamos muitas funções. Se você quiser ser líder, tem que sair da zona de conforto e enfrentar desafios cada vez maiores”.

Na área da Química, a experiência de Ana Flávia tem ênfase na aplicação de nanomateriais em conversão de energia solar, cujo amplo uso é urgente e necessário. “Precisamos pensar nas questões ambientais, já que a queima de combustíveis fósseis agrava o aquecimento global, por exemplo, além das questões econômicas”.

 O trabalho com energia solar começou há 26 anos durante o mestrado, quando iniciou a pesquisa sobre como seria possível baratear o custo das células solares (dispositivos que convertem a energia solar em eletricidade) para que essa tecnologia pudesse ser amplamente utilizada pela população. Assim, foram desenvolvidos novos materiais e métodos de preparo de baixo custo e eficientes.

E sobre aqueles momentos que marcam a carreira de uma pessoa, Ana Flávia não tem dúvidas de que o prêmio vem coroar este trabalho desenvolvido na Unicamp.

O mesmo pensa Paola Azevedo Mello, que recebeu o prêmio “Líder Emergente”. Ela é docente na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Acredita que este reconhecimento é fundamental para a motivação em prol das atividades diárias e desafios que a profissão impõe.

Paola crê que seja importante fazer um trabalho de construção do valor da Ciência, da importância das pesquisas para o desenvolvimento de processo e produtos que beneficiem a sociedade e o progresso. “Precisamos mostrar que as pesquisadoras podem dar uma contribuição tão importante como a de pesquisadores e que há maneiras de superar as barreiras que ainda impactam na evolução da carreira das mulheres. Há ainda muito a ser superado, mas temos hoje uma construção crescente nesse sentido. É preciso trabalharmos para a superação dos desafios e ocupação dos espaços”.

 Liderança na indústria do petróleo

O caminho percorrido pela consultora sênior da Petrobras Sonia Maria Cabral de Menezes até a premiação “Liderança na Indústria” começou logo depois que se formou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1974.

Ela iniciou o mestrado e, simultaneamente, foi aprovada em concurso público para o Laboratório de Espectroscopia da Gerência de Química do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras. Fez especialização em Ressonância Magnética Nuclear (RMN), técnica de caracterização molecular com a qual trabalhou nesses 45 anos de empresa.

O trabalho de Sônia é hoje aplicado em todas as áreas de atuação da Petrobras – da exploração de petróleo até a biotecnologia, passando pela perfuração, produção, transporte, refino, qualidade de produtos e bioprodutos.

Sobre as contribuições da Química para o mundo, Sônia ressalta que a utilização de energias mais limpas é um caminho sem volta em todo o mundo. “A tendência da Química para o futuro é concentrar esforços para obtenção de processos energeticamente mais eficientes, combustíveis mais limpos e renováveis, processos eficientes para obtenção de hidrogênio, captura e conversão de CO2 e no estudo de materiais mais eficazes e mais baratos para conversão de energias limpas em eletricidade”.

E as trocas entre a Química, o universo da pesquisa e as mulheres não param por aí. Ana Flávia frisa que este é um momento ímpar para as mulheres na Ciência. “Não poderia ser mais oportuno receber um prêmio agora, conjuntamente com o anúncio de duas ganhadoras do prêmio Nobel de Química de 2020 pela primeira vez. Isso mostra que as mulheres estão sendo, finalmente, reconhecidas por seu trabalho científico. A tendência é que a cada ano vejamos uma maior representatividade feminina em todos os setores da sociedade. Ainda estamos longe de alcançarmos a igualdade com o sexo oposto no meio acadêmico, mas competência, inteligência e foco não faltam”.