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“A Química vai ter um papel importante e vai ser um pilar para a retomada do país.”

Para Dilermando Brito Filho, química é uma questão familiar. “Desde criança”, ele conta, lembrando do passado em que o pai engenheiro químico levava o pequeno Dilermando para o laboratório, onde se faziam experiências divertidas e instigantes. Hoje, Dilermando Filho é presidente do Conselho Regional de Química da 9ª Região (CRQ IX), responsável por representar o Sistema CFQ/CRQs no Paraná – conselho o qual ele, diga-se de passagem, teve importante papel na criação. O CRQ paranaense tem 7.347 empresas e 13.676 profissionais registrados. Leia a síntese da entrevista:

1) Como o senhor caracterizaria a química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos?

Dilermando Brito Filho – A Química no Paraná vai muito bem. Ela é uma atividade múltipla, não temos especificidade.Temos muitas empresas na indústria química geral, alimentos, serviços auxiliares, atacadistas, metalúrgicas, bebidas, plásticos… Temos de tudo. Estamos atualmente com 7.347 empresas registradas e 13.676 profissionais registrados.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco e qual é o maior desafio?

Dilermando Brito Filho – Estamos empenhados em solucionar a parte de laticínios, é um segmento em que há muita briga com a medicina veterinária. Por exemplo, frigoríficos, empresas que trabalham com derivados de leites e queijos eles geralmente têm médicos veterinários. Nós mostramos que o veterinário deve cuidar da sanidade do gado, se o boi está íntegro, hígido e etc. Depois, quando o boi já foi abatido, a carne é responsabilidade dos profissionais da Química para tratar-se dos embutidos… O leite, a responsabilidade técnica do Químico, para a manteiga, iogurte, vários tipos de queijo que se diferenciam por processos químicos. Outra questão está na área de plásticos, muitas empresas contestam a necessidade de efetivamente se registrarem junto aos conselhos. Isso nos acarreta certas perdas e, se não fosse isso, teríamos um número ainda maior de empresas registradas. Tivemos, entre 2017 e 2019, alguns reveses por conta de advogados que entraram com pedidos de devoluções. Estamos recorrendo porque são atividades claramente previstas na legislação do Químico, que envolvem as reações químicas e que não poderiam ficar sem a presença do profissional e da consequente fiscalização. Há outros segmentos, como o das cervejas artesanais, também com problemas.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico do Paraná? Como avaliaria os impactos?

Dilermando Brito Filho – O impacto foi grande. Felizmente estamos com algumas faculdades e universidades em vários polos que continuam fabricando álcool gel, algumas estão produzindo máscaras de proteção, aquelas com visor plástico na frente. Temos já professores de universidades daqui que desenvolveram já respiradores bem mais baratos, aguardando aprovação das autoridades. Estamos correndo atrás e o pessoal aqui do Paraná trabalha bastante nessa área. Os químicos estão muito envolvidos em colaborar com a população quanto à pandemia.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química?

Dilermando Brito Filho – Entrei na Química ainda criança. Meu pai era engenheiro químico e na época de férias ele sempre passava no laboratório… Ele dava aula de Química Analítica. Eu era pequeno, meu pai ia lá e me mostrava reações. Coloridas, com liberação de gases, odoríficas… Quando criança, isso me chamou a atenção. Logo comecei o ginásio estudando Química direcionado para aquilo que eu queria ser. Eu queria ser Químico Industrial, como meu pai. Posteriormente ele fez a validação para Engenharia Química e em 1955 a Escola de Química foi federalizada e aí passou o curso de Química Industrial para Engenharia Química, professores como meu pai fizeram disciplinas complementares para terem o título de engenheiro químico. Ao final do ano de 1967 (ano de minha formatura como Engenheiro Quimico) já dando aulas há alguns anos para o curso Técnico de Química, prestei concurso para o cargo de professor na UFPR.  Importante dizer que eu nunca pensei em ser professor. Comecei a dar aula no curso técnico por necessidade, estava casado e precisava de dinheiro (risos). Acabei gostando e sendo considerado um bom professor, sempre fiz as coisas com muita vontade. Quanto ao concurso, para dedicação exclusiva, infelizmente o governo autorizou apenas 20h por semana. Isso era ruim porque eu ficaria meio período ocioso. Aí apareceu um concurso pro Instituto Médico Legal para químico analista. Ora, análise era o que eu fazia. Era apenas uma vaga, eu acabei passando. No médico legal foi um choque, tive que trabalhar com material biológico, o que não era minha área, vísceras, sangue… No começo eu quase desisti, era muito difícil. Aos poucos fui estudando, me aperfeiçoando, depois fiz pós-graduação em toxicologia. Assim, passei minha vida profissional entre a atividade de Toxicologista no IML do Paraná e o magistério desenvolvido na UFPR, nas disciplinas de Química Analítica Qualitativa e Química Toxicológica. Além disso, ministrava aulas de Toxicologia Forense para os Cursos de Medicina na UFPR, PUC e Evangélica como convidado da disciplina de Medicina Legal. Também fui professor da Escola Superior de Polícia do Paraná da disciplina de Toxicologia Forense  para formação de Delegado, Médico legista ,Toxicologista, Químico Legal, Investigador, entre outros, além de professor nos cursos de formação de Medicina e Engenharia de Segurança do Trabalho.

5) E como foi sua trajetória no CRQ do Paraná?

Dilermando Brito Filho – Em 1982, estava no segundo ano de um mandato de três na Associação dos Engenheiros Químicos do Paraná, uma entidade para se reunir, trocar ideias sobre Química, existia desde o tempo do meu pai. Em 1980 fui convidado para concorrer à presidência, eu era moço, mas os colegas e professores me convenceram. Na ocasião, a Hebe Helena Labarthe, presidente do CFQ, mandou um ofício para o departamento de Química da Universidade em que dizia que ela precisava criar um conselho no Paraná e precisava do apoio de uma instituição. Aí o chefe do departamento me chamou e perguntou se eu estava disposto a mobilizar a Associação nesse sentido. Na ocasião, eu e a diretoria, éramos ligados ao CREA… Mas eu pedi a legislação e ao estudá-la percebi que tínhamos muito mais afinidade com o Conselho de Química que com o CREA. Embora à revelia de alguns companheiros da diretoria, eu fui até o Rio (a sede do CFQ na época era no Rio de Janeiro) junto com um ex-professor meu que estava aposentado. Eu havia convidado ele para, na hipótese de nós criarmos o conselho, ele assumir a presidência. Eu não iria poder, tinha aula na Escola, atuava no Instituto Médico Legal, curso técnico, a Associação… Tudo que eu não queria era mais um compromisso. Então fomos ao Rio, entabulamos conversação e trouxemos o conselho pro Paraná, em 1982. Eu só entrei no conselho em 1987, como conselheiro suplente. Dois anos depois, virei titular, vice-presidente em 1995 e, em 2009, presidente.

6) Qual cenário o senhor prevê para a Química no pós-pandemia? Há motivos para otimismo?

Dilermando Brito Filho – A Química é uma Ciência muito forte, tudo depende da Química. Tudo que se faz hoje para tentar minimizar a pandemia é relacionado, os insumos de proteção, o álcool em gel, máscaras… Tudo tem a mão do químico. E as indústrias químicas se fortalecem! Como a economia vai ficar um pouco atravancada no país em função de que muita gente teve de deixar o emprego, é claro que as indústrias químicas vão ser um impulso para a retomada do país. A Química vai ter um papel importante e, sem sombra de dúvida, vai ser um pilar para a retomada do país. A Química está presente em todas as atividades, diversas áreas essenciais ao ser humano: nos alimentos, por técnicas de produção e conservação e o controle de etapas pelos conhecimentos químicos, no tratamento e controle da potabilidade da água que consumimos, no controle de qualidade de insumos para medicamentos, bem como no desenvolvimento de medicamentos e vacinas.

7) Qual mensagem o senhor deixaria para os profissionais de Química e os estudantes do Paraná?

Dilermando Brito Filho – A Química vale a pena. É uma área extremamente peculiar. Além de ter a parte industrial, ela tem a parte investigativa. O profissional da Química tem sempre que estar bastante, tentando ver novos produtos, melhoria de processos. É uma área bastante atrativa onde é necessário ter o gosto de nunca parar de estudar e aceitar desafios.