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A Química por trás das queimadas: conselheiro do CRQ MT descreve impactos do fogo na saúde e natureza

Um dos Estados mais afetados pelas queimadas que assolam ecossistemas como o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia na temporada de estiagem do Norte e Centro-Oeste do País em 2020, o Mato Grosso vê com preocupação o avanço da devastação e os seus impactos para a sociedade. Tendo em vista a dimensão do problema, o Conselho Regional de Química da 16ª Região (CRQ XVI), sediado em Cuiabá, convidou o conselheiro regional de Química Evandro José da Silva, engenheiro químico, para explicar, do ponto de vista químico, o que ocorre durante as queimadas e quais reações isso provoca na natureza.

O estudo organizado pelo conselheiro responde a quatro grandes questões sobre o tema elaboradas pela assessoria de comunicação do CRQ XVI (em anexo na íntegra).

Evandro da Silva começa descrevendo os resíduos das queimadas que se constituem no maior perigo para a saúde das pessoas e animais:

“O mais perigoso é o material particulado, formado por uma mistura de compostos químicos. São partículas de vários tamanhos e, as menores (finas ou ultrafinas), ao serem inaladas, percorrem todo o sistema respiratório e conseguem transpor a barreira epitelial (a pele que reveste os órgãos internos), atingindo os alvéolos pulmonares durante as trocas gasosas e chegando até a corrente sanguínea. Todos os estudos sobre emissões atmosféricas produzidas por queimadas têm indicado o material particulado como um dos mais impactantes, sobretudo o particulado inalável. Estes (e em especial o material particulado em suspensão) provocam aumento de doenças respiratórias e diminuição da função pulmonar em crianças, aumento da mortalidade em pacientes com doenças cardiovasculares e/ou pulmonares, aumento e piora dos ataques de asma em asmáticos, aumento de casos de câncer devido a efeitos de partículas cuja composição química contém componentes carcinogênicos”, afirma.

O conselheiro alerta ainda para os riscos à saúde provocados pelo monóxido de carbono.

“Quando inalado, ele também atinge o sangue, onde se liga à hemoglobina, o que impede o transporte de oxigênio para células e tecidos do corpo”, completa.

Ciclicamente, prejuízos ao meio ambiente afetam o ser humano

Os danos à saúde se multiplicam se considerados os impactos das queimadas ao próprio ambiente natural.

“Além de produzir produtos tóxicos e, consequentemente, prejudiciais para tanto para nós humanos quanto para os animais, um dos pontos mais críticos das queimadas, provocadas em qualquer bioma, são as emissões de gases do efeito estufa na atmosfera, principalmente o gás carbônico (CO2), como também o monóxido de carbono (CO), óxido nitroso (N2O), metano (CH4) e a formação do ozônio (O3), além da poluição do ar atmosférico pela fumaça e fuligem que provocam a deterioração ambiental. Dessa forma a conjuminância das emissões com as deteriorações provocam uma série de enfermidades nos seres vivos atingidos”, afirma o conselheiro do CRQ XVI.

O principal subproduto das queimadas e que oferece mais riscos à saúde é a fuligem. No arrazoado produzido por Evandro da Silva, ele expressa o potencial danoso do “carbono negro”.

“A principal fonte de fuligem no mundo são as queimadas (o carbono negro é um tipo de material particulado). O carbono negro é produzido pela combustão parcial da biomassa, cujos compostos orgânicos, detêm significativos teores de carbono. Esta obtenção pode, simplificadamente, ser equacionada como:

[Biomassa] + O2 → H2O + C (fuligem)

Os cientistas afirmam que essas partículas liberadas nas queimadas podem estar tendo um efeito que é o dobro do imaginado em estimativas anteriores.  Eles dizem que a fuligem perde apenas para o dióxido de carbono como o mais importante agente causador de aquecimento no planeta”.

Especialista explica as alternativas para reduzir os danos

Evandro da Silva explica que o uso do fogo é tradicional no campo e que a maior parte das queimadas tem origem antrópica (ação humana). Ele explica que é comum no Mato Grosso o uso controlado do fogo para produzir uma espécie de área de isolamento contra queimadas naturais – mas que mesmo agricultores experientes tem dificuldade em controlar o fogo quando o período de seca é tão intenso quanto agora.

O conselheiro afirma que, embora existam produtos químicos que impedem que o fogo se alastre na mata – ou mesmo que ela entre em combustão -, a quantidade a ser aplicada teria de ser muito grande, inviabilizando economicamente a operação. Outro problema enfrentado seria o impacto do produto antifogo sobre a própria natureza: uma vez lançado no campo, esse material ficaria depositado no solo e chegaria a nascentes e córregos.

“A melhor medida seria evitar essa prática de usar o fogo, mesmo que de forma controlada. Mas temos que seguir com as pesquisas científicas, em busca de uma solução que contemple essas dificuldades e limitações”, afirma Evandro da Silva.