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A Química no reuso de água

Pesquisadora explica o trabalho do Químico na segurança da água na agricultura com vistas à saúde humana

Você já imaginou que a água que está bebendo ou os alimentos que ingere todos os dias podem ter algum tipo de contaminante? É um tanto inquietante imaginar isso, não é mesmo? Este é o campo de atuação da professora do Instituto de Química da Unicamp Cassiana Montagner. Ela estuda o reuso da água, um assunto complexo, pouco pesquisado e fundamental para a saúde humana. Ela e um grupo multidisciplinar analisam os manejos de cultivos e técnicas de tratamento seguras para o reuso.

Desde 2005, Cassiana tem como objeto de estudo a água para usos múltiplos, inclusive o reuso potável. Ela explica que a água que rega uma cultura será determinante para a qualidade do produto final que chega ao consumidor. E, quando se fala do reuso na agricultura, há várias abordagens possíveis. Mas, em todos os casos, o controle de qualidade da água deve acontecer e trata-se de um tema que envolve a atuação de vários especialistas. E entre eles, está o Químico.

Cassiana Montagner. Foto: Divulgação/IQ Unicamp

“Uma equipe composta por diversos profissionais vai avaliar a qualidade de água, e como o transporte e comportamento dos pesticidas vão impactar numa determinada cultura. É um tema muito importante para o Brasil, pois sofremos com escassez hídrica e, ao mesmo tempo, existe uma demanda muito grande por água. E a agricultura representa uma das maiores demandas”. Segundo a professora, para que o reuso seja possível, é preciso que se analise vários parâmetros. “O primeiro fator que vem à tona é o microbiológico, mas existem outros que podem estar associados para a segurança hídrica para uso agrícola”.

É neste ponto que o papel do Químico se faz de suma importância, pois é preciso analisar também parâmetros químicos desta água com mais detalhes. “Se vamos reusar uma água vinda de esgoto, por exemplo, que já foi tratada e será aplicada na agricultura, o tratamento vai focar na remoção dos microbiológicos, dos patógenos que não podem ir para a agricultura, principalmente hortaliças.

Cassiana explica que o reuso na agricultura tem as vantagens do ponto de vista químico que vai além dos aspectos microbiológicos. As águas de efluentes geralmente têm um teor de fósforo e nitrogênio muito alto, assim como de outros nutrientes, bem diferente de uma água potável. Há estudos que mostram que isso pode diminuir os custos do manejo da cultura, pois o uso de fertilizantes pode ser menor. “Este esgoto, mesmo depois de tratado, tem uma carga de nutrientes alta. E quando lançado nos mananciais, nos rios, dependendo da situação de impacto que estes mananciais já têm, pode causar problemas. Mas quando usado na agricultura, pode auxiliar”.

O papel do Químico neste trabalho é avaliar os aspectos positivos do reuso de água na agricultura e também considerar encontrar concentrações de fármacos e outros pesticidas nesta água.

A professora explica que, no caso dos fármacos e defensivos, é importante ressaltar que estes compostos podem agir no sistema neurológico e endócrino, e que eles acabam sendo distribuídos, aplicados na agricultura e que de certa forma, há o risco de se ingerir novamente quando se come um alimento que foi produzido usando uma água de reuso. “A segurança da água na agricultura deve considerar o tipo de cultura e qual é a exposição ao risco – e aí estamos falando majoritariamente de saúde humana – porque isso vai acabar voltando para a nossa dieta”, alerta.

Contaminantes não legislados

Outra área de atuação da professora está voltada para a contaminação química por defensivos agrícolas e outros contaminantes não legislados, que os Químicos chamam de contaminantes emergentes. O objetivo é entender os impactos destes agentes químicos, já que há precedentes que apontam para a necessidade de monitoramento. Segundo Cassiana, na concentração em que eles já estão presentes nos mananciais e nas águas de abastecimento, são quantidades muito pequenas mas que podem causar danos aos organismos e ao homem em casos de exposição prolongada.

Segundo a professora, não se pode negligenciar a importância dos agroquímicos nos cultivos. Porém, no laboratório de Química Ambiental do Instituto de Química da Unicamp o foco é avaliar os impactos associados à saúde humana e aos organismos. E os dados impressionam. “No Brasil, são monitorados menos de 10% de todos os agroquímicos que são permitidos para uso. E muitos deles têm um potencial tóxico bastante conhecido. Então é importante que a gente entenda onde isso vai parar, porque uma vez aplicado, ele está no ambiente podendo atingir nossos organismos e, quando muitas vezes chegam na água de torneira via mananciais impactados e acabamos consumindo concentrações residuais destes contaminantes diariamente. Falta entender quais são os efeitos no ambiente”.

A professora explica que a atuação do profissional da Química é importante no desenvolvimento de novas metodologias. “Estes compostos não são novos, mas a tecnologia analítica, a ação dos Químicos no desenvolvimento de metodologias analíticas que possam ser empregadas para quantificar estes compostos em concentrações menores, ajudou muito. O desafio dos Químicos era medir, ter métodos para checar se aquelas concentrações tinham efeitos no ambiente. E nos últimos 20 anos houve uma revolução na parte instrumental e de preparo de amostras que favoreceu a atuação dos próprios Químicos nesta área”.

E este trabalho é que vai ajudar a gerar critérios e valores seguros para sugerir para a elaboração de legislação. Por enquanto, não se chegou a um método analítico que possa ser usado num programa de monitoramento. Porém, já há vários avanços nesta área. “É importante para que toda esta discussão chegue ao seguinte resultado: ok, não preciso me preocupar. Ou: devemos nos preocupar e isso deve entrar num programa de monitoramento e a concentração segura para este composto é esta aqui”, finaliza.