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A Química na preservação do meio ambiente e no combate à malária

Desafios da Química Analítica no estudo dos microplásticos e seus impactos foram abordados no Condequi

Professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a pós-doutora Carla Grazieli Azevedo da Silva abordou o tema “Microplásticos no Meio Ambiente: Desafios e Perspectivas em Química Analítica” na terceira edição do Congresso Online Nacional de Química (Condequi).

Segundo ela, a disposição (descarte) de plásticos de forma inadequada gera inúmeros problemas. Ela explicou que os microplásticos são qualquer material plástico com tamanho menor que 5 milímetros de diâmetro. “O que ocorre é que esses microplásticos atingem o meio ambiente, principalmente o lacustre e o marinho, onde temos a contaminação de diversas espécies como crustáceos, peixes e algas por ingestão dessas partículas”.

Silva trouxe dados para reflexão. A pesquisa apresentada por ela aponta que o mundo produzirá, até 2030, cerca de 104 milhões de toneladas de plástico ao ano, sendo o Brasil o 4º maior gerador de lixo plástico no mundo.

A pós-doutora ressaltou algumas falhas que pioram a questão do lixo plástico. “Várias empresas que produzem embalagens plásticas, muitas vezes, não têm uma política de retorno desses produtos, não se responsabilizam pela gestão de resíduos. A coleta seletiva não está presente em todos os municípios do país. E o material secundário da reciclagem gera plástico de qualidade inferior e o que faz o valor comercial ser muito baixo”.

Os microplásticos podem ser classificados em dois tipos. Os primários são partículas pequenas (menos de 5mm) produzidas para uso humano. Os exemplos são medicamentos, partículas de uso cosmético e produtos de higiene. Os secundários são formados pela fragmentação de partículas maiores que 5mm por degradação por luz UV, choques mecânicos, hidrólise, etc.

Silva destacou que a maior fonte de poluição por microplásticos nos oceanos são fibras sintéticas oriundas da lavagem de roupas. “É uma questão a refletir. As pessoas não fazem ideia que geram esse tipo de poluição”, disse.

A ingestão de microplásticos por seres humanos pode gerar efeitos tóxicos, e as partículas podem contaminar a água, o solo e os ecossistemas aquáticos.

A professora apontou alguns desafios para o estudo dos microplásticos e seus impactos no meio ambiente. “A quantificação de microplásticos em Química Analítica precisa de padronização de unidades de concentração. A amostragem a ser analisada também precisa ser padronizada. A coleta de sedimentos ambientais é complexa, e há necessidade de tratamento prévio das amostras”, afirmou.

Ela ainda disse que o processo é complexo, e a determinação e a quantificação precisam de instrumentação analítica espectroscopia (FTIR), microscópio eletrônico de varredura (MEV), espectroscopia Raman, espectrometria de massa de pirólise-gás-cromatografia (Py-GC/MS) e outras. “Também é preciso o desenvolvimento de novos protocolos de análise para se detalhar melhor esse passo a passo, além do estabelecimento de frequência de coleta para avaliar, por exemplo, a sazonalidade da poluição de microplásticos”, concluiu.

A Química no combate à malária

A malária é uma doença negligenciada, ocorre em países subdesenvolvidos e tropicais, e causa febre alta, calafrios, sintomas semelhantes à gripe. É causada por uma parasita chamado Plasmodium. A doença é transmitida aos humanos pela picada de um mosquito infectado. Em 2019, foram registradas 409.000 mortes decorrentes da doença no mundo, sendo 95% no continente africano. Outro dado preocupante é que a doença atinge crianças menores de 5 anos, sendo elas 67% (274 mil) das mortes registradas naquele ano, ou seja, 750 crianças por dia.

A pesquisadora Legna Andreina Colina Vegas trouxe para o III Condequi a palestra “Atacando o Parasita da Malária Mediante a Química do Grupo Hemo”, explicando um pouco dos processos químicos que ocorrem tanto na infecção quanto na ação dos fármacos para o tratamento.

Vegas começou falando do ciclo de vida do Plasmodium no corpo humano. “Assim que o mosquito infectado pica o humano, as formas primitivas (esporozoítos) do parasita são injetadas e, rapidamente, começam a migrar para o fígado. Depois, começam a crescer e reproduzir até conseguir a ruptura da célula do fígado (hepatócito), conseguindo infectar os glóbulos vermelhos”.

Ela afirmou que as drogas antimaláricas conseguem agir em uma parte do ciclo de vida do parasita, não existindo, até o momento, um medicamento que atue nos três estágios da malária. Isso exige que, muitas vezes, sejam administradas drogas diferentes simultaneamente para o tratamento.

“O alvo biológico para o tratamento da malária é o grupo Hemo porque dentro do ciclo de vida o parasita começa a afetar nossos glóbulos vermelhos, onde temos a hemoglobina, responsável pelo transporte e armazenamento de oxigênio no nosso organismo”, explicou.

A hemoglobina tem quatro grupos hemos na sua estrutura, que são constituídos por um anel porfirínico no qual se acomoda em seu centro um átomo de ferro ligado a quatro átomos de nitrogênio. “É de lá que o parasita tira energia para continuar se reproduzindo”.

Por isso, o grupo hemo como alvo é tão importante. “Se produzirmos Espécies Reativas de Oxigênio (ROS), conseguimos fazer modificações no parasita, como oxidar os seus lipídeos, oxidar as proteínas e, até mesmo, quebrar o seu DNA, causando a sua morte”.

Segundo a pesquisadora, um dos grandes desafios é o desenvolvimento de drogas que consigam agir no ciclo completo de vida do parasita.

Condequi

Realizado entre os dias 29 de março e 1º de abril, o III Condequi trouxe questões atuais e relevantes para profissionais e estudantes. O Conselho Federal de Química (CFQ) é parceiro do congresso desde a primeira edição (2019).