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A Química Forense na identificação de drogas

Cada vez mais a Química Forense tem contribuído para desvendar crimes e identificar novas drogas lícitas ou ilícitas. Com o objetivo de alertar a sociedade para os perigos que os entorpecentes podem causar à saúde, o Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV)  realizou, no dia 10 dezembro, uma live em seu canal no Youtube, com os peritos criminais com formação em Química Murilo Piton Paulon, Júlia Rabello Buci e Márcia Guekezian. Os especialistas abordaram questões químicas relacionadas às drogas naturais e sintéticas, além de  estudos de casos.

A primeira a falar foi a perita oficial no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e membro e  coordenadora da Comissão Técnica de Ensino Superior do CRQ IV, Márcia Guekezian.

Márcia Guekezian, que também é  doutora em Química Analítica pela Universidade de São Paulo,  contou que o químico tem contribuído muito com os órgãos de controle e saúde, até mesmo os internacionais, na descoberta de novas drogas,  por meio das análises químicas.

“As drogas são substâncias ou matérias -primas, com finalidade medicamentosa ou sanitária. Já o medicamento é um produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico. E o entorpecente é a substância que pode levar a dependência física ou psíquica relacionada, como tal, nas listas aprovadas pela Convenção Única sobre Entorpecentes. O Ministério da Saúde, por meio da Portaria nº 344, classifica os tipos de droga”, definiu a perita.

De acordo com a especialista são classificadas quanto à sua obtenção (natural, sintética ou semi-sintética), sobre o ponto de vista legal (lícitas ou ilícitas) e ainda sobre suas ações no sistema nervoso central (depressoras, estimulantes ou pertubadoras). “O café e o tabaco são exemplos de drogas lícitas. No filme Batman Begins temos um exemplo de uma droga perturbadora aplicada em spray (o espantalho)”, comentou

Como exemplo, a química falou sobre o LSD (Dietilamida de ácido lisérgico). “Está registrado como tendo um gosto ácido e doce. Provoca alucinações e efeito psicodélico, é manipulada em forma de selo. Pode levar a crises de ansiedade, pânico, efeito flashbacks e alteração dos sentidos.”

Ainda de acordo com a química existe uma droga mais recente, a desomorfina, derivada da morfina. Está na lista proscrita, aplicada em solução injetável, tem o apelido de krokodil porque a pessoa fica com a aparência de pele de crocodilo. “Ela causa euforia, náusea, sonolência, constipação, diminuição no ritmo cardíaco e respiratório, com agravamento com o uso contínuo, e desenvolvendo tolerância à droga a médio prazo. Ela foi sintetizada a partir da codeína, fármaco para o tratamento da tosse”, contou Márcia.

A metanfetamina foi outra droga relatada pela perita judicial. “Cristais azulados que podem ser fumados ou injetados. Ela provoca hipertermia, elevação da pressão arterial, risco de ataque cardíaco e derrame, insônia, efeito rebote paranóia e psicose em até duas semanas. Pode causar, também, severa perda de peso e dano cerebral. Possui um efeito de 6 a 12 horas.”

Ainda nos relatos, há a maconha sintética, que sintetiza o THC – ou tetrahidrocanabinol, produto químico responsável pela maioria dos efeitos psicológicos da cannabis – que é popularmente chamada de spice, comercializada como incenso e óleo viscoso

Dentro das drogas sintéticas, existe a N-BOMes, similar ao LSD, e muitas vezes vendida como ácido, doce. Ela causa náuseas, perda de noção do tempo. Tem efeito de 3 a 36 horas, mesmo sem o uso. “Os danos à saúde ainda são pouco conhecidos.”

O lança-perfume também está classificado pelos órgãos de controle. É uma mistura inalante de éter, clorofórmio, cloreto de etila, essência perfumada de frutas, embalado em tubo de alta pressão. “Existe uma variante do lança-perfume, uma mistura química baseada em fluído de isqueiro com o B-25 (utilizado em superfícies acrílicas, e que pode ou não ser diluída em solventes como thinner).”

A química Júlia Buci abordou um fato recente. “Uma demanda que tem aparecido para a gente é a resolução do Contran nº 843 de 2021, que trata sobre teste toxicológico para habilitação, renovação ou mudança para as categorias C, D e E. E que às vezes trazem resultados indesejáveis com a detecção de substâncias ilícitas como maconha, cocaína, anfetaminas, entre outros.

A perita judicial disse que em relação à farmacodependência, a Organização Mundial da Saúde afirma que 10% das pessoas desenvolvem algum grau de dependência.

“Para os químicos é importante conhecer os testes de identificação preliminares. Para o THC são feitos os testes de Beam (solução etanólica) e de Duquenois-Levine.”

Júlia Buci falou também sobre as drogas naturais como a maconha, a folha da coca, a papoula e a epená, da qual é extraído o chá ayahuasca.

“Outra droga natural, também um alcalóide, bem parecida com serotonina, é a Psilocibina (O-fosforil-4-hidróxi-N,N-dimetiltriptaminha), encontrada em fungos e cogumelos. Quando ingerida causa alunicações”, contou.

Murilo Piton abordou os aspectos relacionados aos locais de crime, envolvendo entorpecentes. “As as análises são feitas pelo perito procurando evidências de materialidade (existência da veracidade que o fato ocorreu), autoria, que é a evidência dos envolvidos sejam autores, testemunhas e vítimas,  e dinâmica, que é identificar com a prática criminosa ocorreu.”

Segundo o perito criminal, as principais técnicas de análise laboratorial são os testes colorimétricos (Duquenois-Levine e Scott), o imunocromatográfico, além de outros como CCD, CG-MS, HPLC-MS, ATR-FTIR, Raman e estudos com eletrodos quimio específicos.

O perito ressaltou que é importante fazer uma análise de documentos contábeis da organização criminosa, de aparelhos celulares e rádios comunicadores, câmeras e centrais de monitoramento.

Para ele, quanto maior o número de provas, mais fácil é comprovar a autenticidade do crime. Balanças, prensas, caixas e cofres podem servir de provas.

Ao concluir, Murilo disse que até rotas de fuga ou ponto de localização da ação criminosa são consideradas. “Existe um agravante quando a organização se instala próximo a escolas, por exemplo.”

Assista à live completa em https://www.youtube.com/watch?v=ifY40rXs7VA&t=7440s