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A Química e a docência transformando vidas

A trajetória de Elina Caramão, uma das cientistas mais influentes do mundo, abre uma série do CFQ em homenagem às mulheres

No quarto ano do ginásio, a menina Elina Caramão descobriu a paixão pela Ciência. Natural de Porto Alegre (RS), ela só precisou de uma ajudinha da professora para descobrir o quanto gostava de Química. A história de Elina, uma das brasileiras da Power List 2020, é a primeira de uma série produzida pelo Conselho Federal de Química (CFQ) em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta segunda-feira (8).

Foi em uma Feira de Ciências que ela começou a mostrar que se destacaria. Desenvolveu junto com uma colega, uma reação química chamada digestão salivar in vitro, reações em tubos de ensaios que simulavam a digestão de materiais. À época, as duas ganharam o primeiro prêmio de suas carreiras: um microscópio.

Lá mesmo Elina descobriu o que queria fazer da vida. Ela queria ser Química. Começou a cursar o ensino médio com o desejo e o foco voltados para este objetivo. Quando ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), aos 18 anos, mal sabia que ali passaria uma boa parte da vida. Quando terminou o bacharelado em Química, já dava aulas e estava matriculada no mestrado. No ano em que estava fechando a licenciatura, foi contratada como professora na universidade, onde trabalhou por 37 anos.

Olhando para trás, ela não tem arrependimentos. “Nunca imaginei fazer outra coisa que não seja o que eu faço. Em alguns momentos, já pensei em ir trabalhar na indústria. Não pensei em sair da Química, apenas achei que merecia ser melhor remunerada. Mas sou apaixonada por duas coisas: a Química e a docência. Por isso, continuei na universidade”.

Há seis anos, ela se aposentou da UFRGS e recebeu um convite para ser professora em Aracaju, no Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP) da Universidade Tiradentes, onde enfrenta novos desafios, agora trabalhando em uma instituição particular de ensino. “Me apaixonei pela cidade, pelo clima, pelas pessoas, pelo trabalho diferente que executo aqui. Aprendi a ver a Química de uma forma diferente, sob um ângulo mais de aplicação e aproveitamento”, conta.

Além disso, Elina ressalta o compromisso que tem com a educação e a qualidade do ensino, fatores que a tornam ainda mais realizada. “Ver os alunos aprendendo coisas que para eles podem ser muito difíceis é a maior recompensa”.

Ao longo da carreira, os desafios sempre estiveram pelo caminho. Ela elenca a falta de investimento em pesquisa como um ponto crucial. “No Brasil, mostrar que a Ciência é algo sério e necessário é muito difícil. É um desafio que permeia toda a minha carreira e anda de mãos dadas com a falta de investimento”. Outro ponto que Elina ressalta é a dificuldade de trabalhar com a Química aplicada, que é a tecnologia utilizando a ciência para atingir um objetivo específico. “Isso requer uma interação com empresas. E existe uma dificuldade em estabelecer estas parcerias, pois os empresários querem certa celeridade e não entendem o processo criativo da pesquisa”, relata.

Sobre insistir nos objetivos

Fazer Ciência é difícil para todos os que se lançam à empreitada. Mas para a mulher pode ser ainda mais difícil, considerando-se as dificuldades que elas encontram no mercado de trabalho de uma forma geral, aponta Elina. “Temos que passar a vida provando que podemos ser tão boas quanto ou até melhores do que um homem. A mulher que chega numa determinada posição sempre tem que mostrar que pode fazer algo que eles fariam. Isso está meio no inconsciente coletivo e precisa mudar”.

Para as meninas que nutrem o desejo de trabalhar pela Ciência, a professora é enfática: “Elas precisam saber as lutas que enfrentarão. Porque o caminho não costuma ser fácil. E para a mulher é mais difícil ainda”. E quando se conhece a história completa da menina que queria ser Química, é fácil compreender a advertência de Elina. Ela foi a primeira da família a entrar na faculdade, a primeira a ter um título de mestrado e a única com doutorado. Os pais não davam tanto valor aos estudos e coube a ela mostrar que a educação era importante. “Eles queriam saber quando eu ia começar a trabalhar”.

É por isso que, como professora, ela faz sempre questão de despertar nos alunos a consciência de que eles são os agentes de mudança da própria vida e da sociedade. “Chegar na faculdade é mudar de vida. As pessoas que ali estão precisam ter consciência de que fazem parte de uma ‘elite’, já que o número de pessoas que chega até lá é baixo. Eles precisam pensar que se passam com média 6, isso significa que ele só tem 60% do conteúdo. Na vida, podem ser solicitados a responder pelos 40% que deixaram para trás. Portanto, não é só uma questão de passar no final do semestre, mas sim de ser um profissional completo e competitivo.

Ela é a prova viva de que perder festas, finais de semana, enfrentar competição e superar obstáculos diversos dá resultado. Em 2019, Elina organizou um Congresso de Química em Aracaju, no qual teve a honra de convidar e receber uma gama de cientistas para discutir a Ciência sob diversos aspectos. Ela aponta este fato como o ponto alto da carreira, que foi seguido pela inclusão de seu nome, em 2020, na Power List, como uma das cientistas mais influentes da Química Analítica da América do Sul e do mundo.

Para Elina, o prêmio significa o reconhecimento da dedicação e um motivo a mais para continuar com os projetos e trabalhos que realiza no campo da Química. “Depois de tudo isso, quando a gente chega lá, o prazer que é receber um prêmio, ou saber que um ex-aluno tem uma carreira brilhante, receber uma homenagem de um deles. Isso tudo faz valer a pena. Mas tem que ser assim, abrir a porta a empurrões, se for necessário”.