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A Química da transformação social

Anna Maria Benite Canavarro é uma daquelas mulheres que desempenham um trabalho que inspira a não desistir e a multiplicar o bem. E é esta história que o Conselho Federal de Química (CFQ) conta hoje na série especial em homenagem à Semana da Mulher.

A titulação de doutora em Ciências, licenciada e bacharel em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a conduziu a trabalhar com Química Bioinorgânica Medicinal. Atualmente, ela é professora na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde é conhecida e reconhecida pelo trabalho que desempenha como coordenadora do Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LPEQI) da UFG.

Mas como a Química e a inclusão podem andar juntas? Esta é uma questão a que Anna responde desde que concluiu o doutorado, focado em modelagem de fármacos. Foi quando ela teve a certeza de que a educação era a forma mais rápida e efetiva para mudar a vida das pessoas. “Vi que este é um produto social que vai modificar a trajetória de famílias como modificou a minha”, reflete.

Levar informação, formação social e aspectos diferentes da Química aos alunos é tarefa que Anna pegou para si na tentativa de despertá-los para uma consciência social em torno da Ciência. Um exemplo é a aplicação da simetria molecular, uma das disciplinas com as quais trabalha na universidade. Ela cita o trabalho com materiais como o dendê, fruto de uma palmeira tipicamente brasileira, de origem africana e é muito útil para vários procedimentos químicos. Anna recolhe as cascas, que têm uma substância com alto índice de absorção, e as usa para recuperar os metais pesados da aula de laboratório de Química Geral. Ao mesmo tempo, trabalha com os alunos as curvas de absorção e mostra como o processo é inovador.

“É uma nova maneira de lidar com a natureza, já que é um material sustentável, fruto sagrado para comunidades tradicionais. Uma relação mais respeitosa com natureza, e a Química pode ser feita assim também. Eu posso falar sobre isso na aula de Química e explicar a relação com a diáspora, porque somos o país que somos, porque as condições são estas. Eu quero contar esta história que nem sempre é contada, que fica oculta. E isto é Química. É a mesma Química, só que vista de uma outra forma”.

Transformação de matéria por necessidade

E esta história de inclusão começou no bairro da Taquara, região de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Era início dos anos 80, e a menina Anna Benite via a mãe, dona Edméa, usando carvão para cozinhar na falta de gás de cozinha. Para pagar prestações da casa, a mãe vendeu todos os móveis, o que aumentava a sensação de frio durante o inverno. Sem ter como se aquecer, dona Edméa usava um fogareiro de ferro, onde cozinhava e gerava aquecimento para ela e as duas filhas.

Dona Edméa estava sempre em busca de transformar o que tinha ao alcance naquilo que era necessário. Atenta e intrigada com os processos de transformação feitos pela mãe, Anna desde cedo sabia o que queria estudar. “A Química não foi bem uma paixão. O meu interesse surgiu cedo, mas numa família só de mulheres, negras, pobres, a gente vai se encaminhando conforme as oportunidades vão aparecendo”, conta.

Os estudos, que sempre foram em escola pública, passaram, na graduação, a ser numa universidade particular por meio de crédito universitário. A entrada numa universidade pública se deu por transferência anos depois para o curso de licenciatura em Química no período noturno.

Anna avalia que o acesso à universidade pública e a permanência até o término do curso implicam em fatores socioeconômicos que limitam estudantes pobres. “Fui estudar à noite para trabalhar, me sustentar na faculdade, pois custa caro estar ali, mesmo que seja pública”.

E foi assim, com muito esforço e com a ajuda de algumas pessoas, que Anna foi percebendo que somente por meio da educação a vida poderia mudar para melhor. Ela destaca os professores Waldemar Silva Costa, Sérgio Machado e Eliezer Barreiro como pessoas que foram fundamentais em sua formação. “Eles me ensinaram a ter comprometimento com a propriedade intelectual e também o dever social que é cursar uma universidade pública. Sempre se mostraram muito sensíveis à minha causa, que é a de milhões de brasileiros com poucas ou nenhuma oportunidade de crescer”.

Anna conta que sequer tinha computador para estudar e fazer os trabalhos. “O professor Sérgio disponibilizou tudo para garantir que eu tivesse o mínimo necessário para executar o que eu precisava: computador, tinta para usar na impressora, papel. Coisas pequenas para muita gente, mas que podem inviabilizar tudo para quem vive em condições precárias. Porque não adianta você falar em vencer por esforços próprios se você não tiver oportunidades e pessoas como estas para te estenderem a mão”.

Além da sensibilidade quanto às necessidades materiais e de incentivo que Anna precisava, ela encontrou nos professores pessoas que compreendem os obstáculos que a mulher negra e pobre precisa vencer. “Quando a gente traz a pauta racial, as pessoas tendem a achar que você está querendo promover uma separação, colocando raça onde não é o lugar e ocasião corretos. E não é nada disso. São questionamentos que a gente precisa se fazer se quisermos uma sociedade mais justa, mesmo que este não pareça um problema que você tem na sua vida”. O Racismo no Brasil é velado.

As meninas na Ciência

As dificuldades que Anna teve e continua tendo ao longo do caminho são uma amostra de um mundo que ainda não está completamente convencido da necessidade de igualar o placar entre homens e mulheres. Ela ressalta que a Ciência é feita por homens e mulheres, mas numa sociedade racista e machista. Então as contribuições das mulheres, muitas vezes, não são celebradas como a dos homens.

E pensando nos entraves que conhece tão bem, Anna encabeça um projeto junto com o Colégio Estadual Sólon Amaral e o Grupo de Mulheres Negras Dandara no Cerrado. O Investiga Menina é um trabalho que instiga meninas a seguirem carreiras em Ciências Exatas e Tecnológicas. As garotas têm assistência regular e acompanhamento pedagógico uma vez por semana. Uma vez por mês – quando há recursos para isso –, eles trazem uma cientista negra de outro estado e uma do estado para falar sobre o seu trabalho para as meninas. “Em vez de pegar os autores já consensuados pela Ciência para explicar o conteúdo, trazemos pesquisadoras para dar aula sobre átomos, prótons, etc. E é um desafio, porque as pesquisadoras não têm muito o hábito de se expor para a população em geral. Isso é algo que nós, cientistas, precisamos trabalhar também. E as meninas ficam encantadas porque veem uma mulher tal como elas falando sobre fazer Ciência e mostrando que é possível”.

Hoje, Anna convive na universidade com alunas que participaram do projeto há alguns anos. E isso, para ela, é a mostra de que seus esforços estão na direção certa. “Não podemos ceder a estas tentativas de diminuir a nossa capacidade laboral, a criatividade e a inteligência. É importante que a gente acredite nestas perspectivas de que não há este lugar determinado, hierarquizado, para as habilidades femininas”, finaliza.