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A Química a serviço da arte: profissionais em ação para restaurar quadro célebre da independência

Utilizado em dez entre dez livros de História do Brasil para ilustrar o “brado do Ipiranga”, o momento em que o então príncipe Dom Pedro I (Pedro IV em Portugal) declara a Independência do Brasil, o quadro “Independência ou Morte”, obra do artista paraibano Pedro Américo, está exposto em uma parede do Museu do Ipiranga, em São Paulo, desde 7 de setembro de 1895. Ele foi concluído em Florença na Itália, em 1888 – 131 anos atrás. Com o tempo, é natural que a pintura se deteriore: trabalho para restauradores… e químicos.

Juntamente com dois pesquisadores do Instituto de Física da USP, Marcia Rizzutto e Pedro de Campos, duas pesquisadoras do Instituto de Química da USP, a professora Dalva de Faria e a pós-doutoranda Isabela dos Santos estão a frente do processo científico por trás da restauração.

A ação combinada entre pesquisadores de Física e Química garante qualidade ao trabalho artístico, dos restauradores. Os profissionais da Física empregam equipamentos portáteis – já que seria inviável retirar o enorme painel de Pedro Américo da parede. As tecnologias usadas pelos pesquisadores do Instituto de Física incluem imageamento por reflectografia de infravermelho, espectroscopia por fluorescência de raios-X e espectroscopia Raman.

Por meio do infravermelho, é possível visualizar quis foram os traços iniciais, a grafite ou carvão, que o artista recobriria após com camadas de tinta. As técnicas espectroscópicas possibilitam determinar a paleta de cores e, por decorrência, sugerir os pigmentos usados originalmente pelo pintor. Com o uso dos raios-X, é possível descobrir que elementos químicos compõem as tintas. Essa análise, porém, não responde a todas as perguntas: um mesmo elemento químico é utilizado para se produzir mais de um efeito, em mais de uma cor ou tonalidade. É aí que as pesquisadoras da Química da USP entram em cena.

“Utilizamos uma quantidade pequena de amostra, que não é perceptível. No laboratório, utilizamos o equipamento de bancada pra poder garantir resultado mais preciso”, afirma Isabela dos Santos.

Restauradores se valem da ciência para garantir durabilidade da obra

Contrariando o senso comum, Isabela explica ainda que o objetivo do trabalho de identificação dos materiais nem sempre é reproduzi-los à risca para recolocá-los na pintura.

“Atuamos lado a lado com a restauradora, ela faz as perguntas. É relevante que a gente conheça o material que vai ser restaurado, até para pensar na compatibilidade. Mas nunca é interessante forjar a alteração como se ela fosse da obra, é preciso diferenciar”, afirma. A pesquisadora complementa:

“O que é mais importante é que sejam introduzidos materiais seguros para a manutenção da obra. As tintas próprias de restauro devem ser facilmente removíveis: se em 50 anos tivermos de restaurar novamente talvez seja interessante remover os repintes que fazemos hoje”.

Ao analisar a obra, os restauradores identificaram três reparos – o último, de 1972, feito por um restaurador. Os restauros anteriores, feitos com tinta a óleo, não são mais recomendados porque o material endurece com o tempo e torna mais complexos novas ações. Terminado o trabalho de restauro, o quadro será recoberto com verniz de alta qualidade, que resiste a muitos anos sem amarelecer.