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“A crise passará e a nossa profissão sairá plenamente fortalecida.”

“Aqui é CRQ MG, CRQ II ninguém conhece não”, brinca o presidente do “CRQ MG”, Wagner Pederzoli, na abertura da entrevista. Como bom mineiro, de trato afável e papo fluído, Pederzoli fala com propriedade da Química de seu Estado. E na sua área, o presidente já desempenhou quase todos os papéis e atividades. Nesta rápida conversa, o presidente fala dos desafios de gerir o conselho em meio à pandemia e a luta para que os profissionais recebam da sociedade o reconhecimento que merecem 17.322 empresas e 36.680 profissionais registrados. Leia a seguir a síntese da entrevista.

1) Como o senhor (a) caracterizaria a química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos e que profissionais têm mais campo de atuação?

O CRQ MG de longa data tem como slogan a sua idade (63 anos, no caso) seguida da expressão “na defesa do profissional da química e da sociedade”. De cinco anos pra cá, essa palavra “sociedade” está muito em voga e, com essa pandemia, mais ainda. Em Minas usamos como grandes áreas, abaixo do nosso emblema, as quatro palavras mágicas da química: ensino, pesquisa, tecnologia e engenharia. Isso trouxe uma participação muito grande, efetiva. Não da sociedade como um todo – nós brasileiros não temos esse costume –, mas principalmente das empresas e dos profissionais diretamente. Os setores de destaque em MG são vários: primeiro, a pesquisa e inovação. Temos ao menos meia dúzia de centros de excelência. Talvez o mais novo e badalado seja o CTNANO, ligado à UFMG. Temos também destaque na área de bebidas, especialmente cachaças… O único curso superior de tecnologia de cachaça é dado no Instituto Federal de Educação Tecnológica de Salinas, no norte de Minas, onde se fabrica a melhor cachaça do mundo, a famosíssima Havana. Além disso, as áreas importantes são a mineração, temos Minas até no nome (risos), metalurgia, siderurgia, alimentos, açúcar e álcool, bebidas, com destaque para cervejarias e cachaças de microprodutores, as de alambique. Há ainda petroquímica, cerâmica, cimento e cal, fertilizantes, celulose, química de base, patologia clínica e análises clínicas, vários grandes laboratórios.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco de atuação? Qual o maior desafio e qual a conquista que o senhor (a) avalia como a mais importante?

Como não poderia deixar de ser, nosso foco principal é a fiscalização. Quando falo fiscalização, não me limito à empresa e ao profissional. O sentido é amplo, de parceria com outros órgãos. Nós estamos também na fase final do nosso planejamento estratégico, estávamos quase terminando as discussões com especialistas, mas aí veio a pandemia… Temos grande integração com as escolas formadoras, mas temos grande dificuldade com o registro dos professores. A grande maioria não mantém os registros e, como existem decisões judiciais nesse sentido, atuamos mais no convencimento. Criamos dois programas no conselho que funcionam maravilhosamente bem: o CRQ MG Jovem, exatamente pra atingir o estudante e o recém-formado. Ele tem funcionado bem, inclusive junto aos centros acadêmicos, grêmios e etc. Criamos também um programa para os professores, chamado “CRQ MG, uma relação mais que legal”. Esse legal é porque a legislação determina o registro deles, claro, e outro é o de legal como se diz na gíria, “bacana”, de “parceria”. O que tentamos fazer é oferecer condições especiais, que o professor passa a manter seu registro profissional.. enfim, para trazermos o professor para o nosso lado. Ele é um formador de opinião e em muitos casos fazem campanhas contrárias aos conselhos também junto aos alunos. Temos também um exercício bem interessante com nossas delegacias, um processo de interiorização grande. São 15 delegacias, nas cidades polo. Normalmente são cidades que tem uma força educacional.

3) No seu entendimento, como tem sido o enfrentamento da pandemia de coronavírus no setor químico em seu Estado? Como avaliaria os impactos?

Em MG foram várias as medidas para combater a pandemia, políticas e econômicas, tomadas pelos agentes públicos e entidades privadas. O controle sanitário, a nosso ver, foi muito exitoso. No caso das empresas do setor químico, observamos a adoção de medidas sanitárias determinadas pelas entidades de saúde publica. Outro ponto importante que devemos destacar está no esforço das empresas de não suspender suas produções, o que geraria desabastecimento e caos social. Devemos destacar ainda o esforço das empresas que produzem sanitizantes. Estes foram fundamentais para a redução dos índices de contaminação da população e conservaram muitas vidas. A pandemia gerou grandes impactos negativos nas esferas econômica e social. Contudo, acreditamos que esses impactos serão superados. No que se refere ao CRQ, devemos pontuar uma forte atuação na fiscalização e regularização profissional, bem como no apoio ao assessoramento das entidades sanitárias, policiais, ambientais, no combate a fraudes na fabricação de sanitizantes a base de álcool. Podemos relatar inclusive casos de prisão de pessoas dedicadas à produção clandestina de álcool 70%. O serviço de fiscalização foi crucial na análise da regularidade de empresas e profissionais atuantes no setor de produtos de limpeza e desinfecção e foi feito um trabalho grande de levantamento da situação dessas empresas e de profissionais. Outro viés de atuação do CRQ é o desenvolvimento de parcerias com entidades públicas e privadas visando a produção e doação de sanitizantes a base de álcool para hospitais públicos, entidades de assistência social e população carentes. As parcerias se deram através do projeto Química Solidária, do Sistema CFQ/CRQs. Cabe salientar o empenho de conselheiros, delegados regionais e funcionários no desenvolvimento do referido projeto e os ótimos resultados alcançados. O maior desafio se deu em manter e garantir trabalhos de fiscalização, orientação e regularização de registro profissional em meio a pandemia, sem que tal atuação gerasse riscos sanitários aos funcionários e colaboradores envolvidos. Várias foram as medidas adotadas para viabilizar a manutenção: home office, emprego de plataformas de conversação, incremento tecnológico e outros. Em meio à pandemia, a maior conquista se dá na visualização e o reconhecimento da sociedade da importância dos conselhos como entidades fundamentais para garantia da proteção social.

 

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ? Como se deu sua trajetória?

Falar da gente é sempre difícil. Minha formação primeira na Química foi como técnico de nível médio, no CEFET de Minas Geris, e como técnico químico trabalhei alguns anos numa indústria têxtil e também numa indústria que fabricava produtos para o setor têxtil. Depois, já como engenheiro químico, atuei na indústria de refratários. Mais tarde, já formado, passei por uma grande cervejaria e fui fazer curso de especialização em maltaria e cervejaria na universidade de Louvain, na Bélgica. Trabalhei com isso alguns anos, fazendo cerveja e provando cerveja (risos). Depois disso, ingressei na área ambiental a convite de um ex-professor da própria escola de engenharia que era na época secretário de Ciência e Tecnologia aqui de Minas pra trabalhar na Fundação Estadual do Meio Ambiente, exatamente no controle ambiental de indústrias químicas e alimentícias, que integravam minhas habilidades. Por causa desse trabalho, fiz uma segunda graduação em Direito, voltando o foco do Direito pra área ambiental e profissional. Não se pode parar… Fiz mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto em Engenharia Ambiental e há dois anos e meio terminei um doutorado em Ciência. A área escolhida foi justamente a parte do ensino de química e o ensino de engenharia química. Por causa disso, já atuo há algum tempo como professor dessas áreas na Universidade de Itaúna. Pra fechar, sou empresário há 30 anos, com duas parceiras, da Engequisa, Engenharia química sanitária e ambiental. Temos hoje um laboratório entre os dois ou três melhores do Estado. Fui para o CRQ através do meu trabalho como técnico e engenheiro. Segui o caminho natural: conselheiro suplente, membro titular, membro da diretoria, presidente…

5) Qual herança, qual ensinamento restará do enfrentamento dessa pandemia, pra você e para os profissionais da Química? Há motivos para otimismo? Quais o senhor (a) citaria?

O Maior ensinamento da pandemia é a valorização da Ciência pelo homem. A sociedade de maneira traumática percebe o grande valor do trabalho científico nas diversas áreas do conhecimento, que são fundamentais pra preservação da vida e garantia de sua qualidade. Para os profissionais da Química, o ensinamento está na importância e relevância das atividades por nós desenvolvidas. Está no senso de valorização jamais visto e está estampado nos jornais, telejornais e revistas. O profissional da Química é fundamental para o desenvolvimento do país, para a segurança nacional em todas as áreas, em todos os aspectos. A crise passará e a nossa profissão sairá plenamente fortalecida.

6) Qual mensagem o senhor (a) deixaria para os profissionais de Química do seu Estado e do país? E para os estudantes?

A mensagem é de esperança, para o profissional da Química, desse reconhecimento, e que seja refletido na sociedade. O profissional precisa de uma qualificação contínua, precisa dominar as ferramentas mais modernas e tecnológicas, ter um bom networking e todos os meios possíveis para ampliar os horizontes profissionais. Quem para, fica pra trás.