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A ciência do trabalho e da persistência

Na Semana da Mulher, conheça uma das cientistas mais influentes do mundo: Cláudia Alcaraz Zini

Ao ser informada de que seu nome consta na Power List 2020, Cláudia Alcaraz Zini, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), relembra que o primeiro sentimento foi o de gratidão. Depois, a alegria.

“Gratidão a Deus e aos meus alunos, colegas, familiares e amigos que ombrearam comigo os desafios desta apaixonante caminhada. Alegria de saber que este tipo de honraria serve como estímulo aos jovens pesquisadoras e pesquisadores, aos estudantes, em qualquer dos níveis de escolaridade, trazendo brilho aos esforços conjuntos de toda a comunidade científica brasileira. A Ciência brasileira precisa de destaque nacional e internacional, pois temos muitos pesquisadores e pesquisadoras talentosos e hardworkers que têm alcançado contribuições valiosas para a nossa sociedade!”

Elaborado pela revista The Analytical Scientist, o ranking elenca os 60 cientistas mais influentes de todo o mundo, divididos por continentes. Uma das três brasileiras listadas é a gaúcha Cláudia. Nas suas palavras, “é como dizer a um jovem aluno: vá em frente, não desista, existem maneiras, existe espaço para se realizar um excelente e belo trabalho!”

O prêmio representa o coroamento de um trabalho de mais de 30 anos, e Cláudia faz questão de dizer que há o trabalho de muita gente. “Este reconhecimento é também de todos os alunos e colegas com os quais trabalhei. Sem eles, não teria chegado até aqui. É preciso multiplicar este reconhecimento para cada um deles. Também é das instituições, do Instituto de Química da UFRGS, onde pude desenvolver o trabalho científico, das instituições brasileiras de fomento e de outras instituições parceiras”.

Cláudia trabalha com cromatografia. Nos últimos 15 anos, voltou sua atenção para a cromatografia gasosa bidimensional abrangente. “São técnicas de separação de misturas complexas, bem como de identificação e quantificação dos componentes presentes. São de extrema importância para a sociedade, já que a maior parte das amostras que encontramos na nossa vida real são complexas. Alguns exemplos são petróleo e derivados, princípios ativos em fármacos, poluentes em solos, plantas, etc”, explica.

Com empolgação de quem está iniciando, ela reflete que a expressão “tudo é Química” define bem não somente a caminhada, mas tudo que podemos ver ao redor. “Se não for Química, é Física ou alguma outra questão ligada ao que transcende a nossa compreensão humana. Química é vital para o desenrolar de nossas vidas, perpassando tudo o que somos e o que nos circunda. No mundo moderno, a Química ainda nos proporciona muitos benefícios, sem os quais teríamos enormes dificuldades no nosso dia a dia, como medicamentos, produção de alimentos em escala, etc”.

E esta relação tão próxima com a Química começou na infância, com a contemplação da natureza e de aspectos específicos da matéria. “Há uma beleza intrínseca e fascinante na matéria e nos processos químicos. O interesse ali despertado cresceu e temas como Química Ambiental, Fitoquímica e, por fim, a Química Analítica foram tomando espaço ao longo dos estudos nos cursos de graduação e pós-graduação”, relembra.

A carreira como pesquisadora apresentou desafios comuns à boa parte dos cientistas. Mas, para Cláudia, os obstáculos inerentes ao gênero não representaram um fator de destaque. “Os desafios da carreira de pesquisador e pesquisadora são diversos, mas suponho que toda e qualquer profissão traga consigo seus desafios particulares. Posso dizer que enfrentei sim desafios relacionados ao fato de ser mulher, mas, graças a Deus, em todos estas ocasiões, foi possível superá-los. Contudo, é importante incentivar as jovens alunas, mostrando-lhes a beleza da carreira na área da Química, já que algumas podem ser desanimadas pelos obstáculos e preconceitos. Perseverança e foco são fundamentais neste campo.”

Quanto ao futuro da Química Analítica brasileira, esta cientista persistente gosta de pensar nos jovens pesquisadores brasileiros emergentes e na necessidade de serem estimulados, a fim de não se perderem os talentos desta Nação, pelo caminho. “É necessário mais investimento em pesquisa sim, como todos sabemos, mas também é necessário um planejamento mais eficiente de pesquisa e desenvolvimento, políticas de fomento que envolvam universidade e empresas, projetos transdisciplinares para equipes de pesquisadores de distintas áreas do conhecimento, bem como melhor gestão do clima organizacional das instituições de pesquisa/ensino e das carreiras para maior valorização dos pesquisadores e pesquisadoras e dos docentes.